Uma foto,
senhor Presidente!
Carlos Alberto dos Santos Dutra
Joaquim José da Silva olha
para a receita médica no corredor do SUS do hospital Nossa Senhora Auxiliadora,
de Três Lagoas-MS e suspira. A fila é lenta. Enquanto aguarda a sua vez,
paciente, olha para o canto da sala e uma TV informa que o Presidente Luiz
Inácio Lula da Silva estava sendo aguardado por uma multidão de pessoas nas
proximidades de uma termelétrica que iria ser inaugurada pelo chefe da Nação
naquele dia.
Ah! Como gostaria de estar
lá para poder saudar aquele Presidente-metalúrgico, Presidente-trabalhador,
igual a nós, pensa ele envaidecido, sorrindo para si mesmo.
Uma leve brisa dialética
sopra sobre o rosto do homem já curvado pela intempérie dos anos, e de súbito,
em meio a um sentimento que lhe brota da alma, se vê rejuvenescido. Sente-se um
menino, militante cheio de forças e sonhos, empunhando bandeiras em prol da
justiça e das causas, aquelas ditas menores, do povo.
E lá vai seu Joaquim ao lado
dos sem-terra, dos sem-teto, uma fileira de “sem”, todos ansiosos para acenar
para aquele pequeno grande homem. Uns, portando faixas, outros, querendo
entregar um “mimo” àquele pernambucano de garra; uns, trazendo reivindicações,
outros, somente com a vontade de vê-lo de perto.
O professor aqui também lá
esteve nessa hora. Até que tentou chegar perto. Mas quando o jovem policial lhe
informou, com retidão e cortesia, de que necessitava de uma credencial amarela
e uma tarja que devia ser colocada no pára-brisa do carro e assim sua entrada
no recinto seria permitida, percebi que não somente seu Joaquim ficaria de
fora, sem ver o seu Presidente. Viviam semelhante condição.
E tudo foi tão rápido quando
a comitiva passou. Vidros fechados, silenciosa, célere. Assessores atentos,
além de reduzir os convites a menos de 300 pessoas, teriam impedido o
Presidente de abrir a janela do carro durante o percurso do aeroporto até o
local, desculpa-se Joaquim, em relação ao descuido de seu comandante maior.
A fazenda desse tal
Orestinho deve ser segura e o Presidente, afinal, tem que ter boas relações,
pensou o pobre homem em sua inocência.
O professor havia separado
um de seus livros --“Razão e Utopia”--, para entregar ao Presidente.
Ingenuidade sua pensar que lhe seria dada a oportunidade para dedicar-lhe este
agrado em meio a tanta gente importante vinda de Brasília e que cercavam o
homem. E pensar que durante a campanha eleitoral de 1994, em Itaici-SP, numa
plenária promovida pela CNBB, esse mesmo Luiz Inácio Lula da Silva havia lhe
puxado a barba e lhe dito palavras de afeto, coisas que fariam qualquer
militante seguir seu líder até as últimas conseqüências.
Seu Joaquim desperta do sonho quando a senhora a sua frente lhe avisa que o médico já foi embora que ele deverá voltar no dia seguinte para fazer o exame. Corre até a rodoviária ainda a tempo de pegar o ônibus para Brasilândia.
De volta para sua cidade, já na estrada, pela janela, fica admirando as imagens que passam. Passam árvores, passam pastagens, e passa por ele o carro rápido do professor, que também volta para casa. O homem do volante carrega no peito a frustração resignada de não ter conseguido ver o Presidente. Consola-se, pois outros integrantes de diretórios do PT, também não conseguiram tal façanha.
Seu Joaquim continua olhando
pela janela, e adormece. Uma carreta carregada, nessa hora, ultrapassa o ônibus
em que viaja. Desperta com o ruído do motor do veículo. E por um momento,
rápido e fugaz, pensou ter ouvido o avião presidencial que deixava Três Lagoas
em direção ao Pantanal...
Publicado no Jornal Diário MS, Dourados-MS, 05 de
abril de 2004, e Jornal da Cidade, Brasilândia-MS, 01-Abril a 15.Abril
de 2004.