Remessa nº 237
do General Rondon
Em 19 de maio de 1949, o General Cândido Rondon, presidente do Conselho Nacional de Proteção aos Índios, escreve ao diretor do SPI, enviando uma Remessa de informações sobre as terras dos índios Ofaiés, obtidas do coronel Nicolau Bueno Horta Barbosa, na época, ex-chefe da Inspetoria Regional de Campo Grande, IR-5.
Conselho Nacional de Proteção aos Índios.
Remessa nº 237. 19.V.1949.
Do Presidente do CNPI, Sr. Dr. Modesto Donatini Dias da Cruz,
MD Diretor do Serv. de Prot. aos Índios.
REMESSA DE INF.ções SOBRE AS TERRAS DOS ÍNDIOS "OFAIÉS".
1) A fim de atender ao pedido formulado pelo etnólogo da S.E. dessa
Diretoria, Dr. Darcy Ribeiro, obtive do Sr. Coronel Nicolau Bueno Horta
Barbosa, as informações que a este acompanham e que esclarecem a questão da
medição das terras pertencente aos índios Ofaié, além de fornecer outros dados
importantes para o histórico das atividades desse Serviço. 2) Este memorial,
por sugestão do próprio Cel. Nicolau, foi enviado, por cópia, ao Sr. Cel. da
Reserva do Exército Ramiro Noronha, para que se digne de o examinar, corrigir
ou ampliar na parte que este distinto e dinâmico oficial tomou nos trabalhos de
medição das terras dos Ofaié; e, logo que me venha a resposta do ex-colaborador
da Comissão Rondon e do SPI, enviar-vos-ei, para ser remetida ao Dr. Darcy.
Saúde e Fraternidade.
Gal. Cândido Mariano da Silva Rondon.
Presidente do CNPI.
Conselho Nacional de Proteção aos Índios.
Petrópolis, 3 de abril de 1949.
Do: Cel. Nicolau Bueno Horta Barbosa, ex-chefe da I.R. 5,
Ao: Exmº Sr. General Presidente do CNPI.
Assunto: Informação sobre as terras dos índios "Ofaiés" em
resposta à solicitação contida em tel. nº 266 de 23.2.49.
1. Preliminares- Desde que a solicitação feita em s/ tel. nº 266
de 23/ sobre as terras dos Ofaiés faz referências ao Sr. Pimentel Barbosa como
as tendo medido, achamos (...) preliminarmente dizer sobre a situação
profissional desse serventuário, a fim de corroborar as informações do assunto
principal e fundamentar as conclusões negativas a que vamos chegar.
O Sr. Pimentel Barbosa teria servido sob a direção do Sr. José Bezerra
Cavalcante - nas obras contra as secas - em Estados nordestinos, onde se
teria habilitado praticamente nas operações topográficas de levantamentos e
nivelamentos geralmente feitos entre nós com o trânsito (teodolito) e o nível de Gurley. Aquele
engenheiro, que faz parte do SPI, desde sua fundação e do qual chegou a ser
diretor duas vezes, teria indicado o Sr. Pimentel Barbosa ao Inspetor
Estigarribia mais ou menos entre 1920-27 para servir na Inspetoria sediada em
Cuiabá. Desse modo o Sr. Pimentel Barbosa teria entrado para o SPI na
Inspetoria de Mato Grosso talvez com o título de auxiliar no quadro do pessoal
de obras ou de contratados, que naquela época se admitiam por simples portaria
válida até 31 de dezembro do ano, a qual se tinha renovado no ano seguinte, sem
jamais dar nenhum direito ou garantias peculiares ao quadro efetivo de
funcionários. Era essa, aliás, a condição da quase totalidade do pessoal do
SPI.
Entre os serviços prestados àquela Inspetoria ao tempo da chefia de
Estigarríbia, ocorre-me lembrar a viagem de Pimentel Barbosa `a cidade de Mato
Grosso com incumbência de verificar a situação criada pelas hostilidades dos
índios Cabixis, cuja pacificação era problema do dia. O fato de haver
merecido servir com o Sr. Bezerra Cavalcante e o Inspetor Estigarríbia depõe a
favor dos méritos de Pimentel Barbosa, que posteriormente se confirmaram na
pacificação dos Xavantes, onde encontrou a morte.
Em 1923 parecia não mais haver na Inspetoria de Mato Grosso, região do
Norte, trabalhos em que pudesse o Inspetor Estigarríbia aproveitar a dedicação
e prática de Pimentel Barbosa, aos passo que no Sul do Estado encontrava-se a
Seção de Linhas Telegráficas incumbida do ramal de Campo Grande a Ponta
Porãn, cujos trabalhos ou operários eram todos eles índios Terenas e
Caiuás, por deliberado propósito do chefe e dentro do método seguido pela
Comissão Rondon. Acontecia também que àquele chefe o Governo estadual
incumbira de efetuar as demarcações das terras reservadas para os índios Caiuás,
nos distritos de Dourados e Nhuverá, no planalto da região
hervateira e para os índios Terenos em Nioaque, junto ao ribeirão
Urumbeva nas faldas da serra do Maracajú.
Para dar autoridade oficial ao chefe da Seção de Linhas Telegráficas e
facilitar-lhes a ação em tudo que se ligasse ao SPI, o Inspetor Estigarríbia o
nomeou seu Delegado ao Sul do Estado, conforme previa o artº nº (...) do
regulamento geral então vigente. Achava-se tudo a essa altura preparado para
transferir as atividades de Pimentel Barbosa para a região sulina junto ao
chefe da seção telegráfica, como efetivamente aconteceu. O serviço inicial
incumbido aos prestimoso auxiliar foi o nivelamento regular (a nível de Gurley)
do eixo do ramal construído e recém-inaugurado; depois, quando a Seção passou
às estradas de rodagem, Pimentel Barbosa teve a incumbência das obras do
ribeirão da Lagoinha, sempre com
operários indígenas somente.
1) Relativamente às terras dos índios, ele recebeu a incumbência de
traçar a grande linha de fechamento do perímetro da reserva de Dourados, cujo
Posto veio a denominar-se depois Francisco Horta; 2) O traçado de todo o
perímetro das terras da aldeia Tei-Cuê, onde se instalou posteriormente o Posto
José Bonifácio; 3) Idem, idem, os das terras do distrito de Nhuverá ou União,
para os índios da mesma nação Caiuá, onde se instalou o Posto
primitivamente denominado de União, depois Benjamin Constant.
4) Estando para terminar em 1924 e 1925 o prazo da Concessão
privilegiada da região hervateira à Cia Mate Laranjeira, a Inspetoria designou
Pimentel Barbosa para reconhecer as glebas principais habitadas pela nação Caiuá,
ou sejam as aldeias de mais vulto, cuja reserva para os índios seria pleiteada
perante o Governo estadual antes que este renovasse a concessão, confiando o
Inspetor Estigarríbia nas boas disposições manifestadas pelas autoridades a
favor da justiça devida à população autóctone.
Seguiu, depois, o auxiliar Pimentel Barbosa em longa excursão à região
dos hervaes, onde verificou mais ou menos 5 glebas, que efetivamente o Governo
estadual reservou para os índios da nação Caiuá, excluídas que foram da concessão reservada, em cuja região
se achavam encravadas. Chegada a oportunidade da demarcação dessas glebas (1925 ou mais provavelmente
1926) já a Inspetoria com sede na Capital do Estado passava à chefia do então
Major Ramiro de Noronha, que já a servia como auxiliar-técnico ao tempo da
chefia do Inspetor Estigarríbia. Coube então, ao então Major Antônio Mena
Gonçalves a designação governamental para medir e demarcar ditas glebas, como
efetivamente realizou assistido pela Inspetoria interessada com o pessoal e
transporte e todos os fornecimentos de víveres, tudo sob a direção do então
encarregado do Posto hoje Inspetor XXIII Érico Sampaio. além dessas demarcações
ao dito engenheiro militar veio a caber a das terras da então chamada Colônia
de Buriti para os índios Terenos, cuja reserva oficial havia sido obtida pelo
Inspetor Estigarríbia baseado nas informações e mapas recebidos de seu delegado
no Sul do Estado.
Concluindo estas preliminares, fazemos notar que o auxiliar Pimentel
Barbosa, apesar de toda sua comprovada habilitação prática em serviços
topográficos, nunca apareceu como profissional (engenheiro ou agrimensor)
designado oficialmente pelo Governo estadual para as demarcações a favor dos
índios; nem para as reservas nos distritos de Dourados e Nhuverá,
em cujas operações serviu apenas como auxiliar da Inspetoria, nem mesmo quanto
à gleba que havia explorado nos hervaes para os índios Caiuás, onde o
demarcador foi o engenheiro militar Major Antônio Mena Gonçalves. É que o
referido prestimoso auxiliar, apenas possuía a prática e não os cursos oficiais
de engenharia ou de agrimensura; como também jamais cuidara de habilitar-se no
Estado requerendo exame que lhe legalizasse o exercício profissional.
2. Podemos agora entrar diretamente no assunto das terras dos Ofaiés
após termos recordado como o auxiliar Pimentel Barbosa figurou em demarcações
sem nunca ter sido o demarcador, e como excursionou pela região hervateira com
a incumbência de colher dados para a Inspetoria solicitar do Governo estadual a
reserva de glebas habitadas pelos Caiuás.
De acordo com a mesma incumbência teria Pimentel Barbosa inspecionado
também as terras ocupadas por índios na margem esquerda do baixo rio Brilhante,
rio Ivinhema; não sabemos, porém, se a sua excursão abarcou a gleba onde se
aldeavam os índios, que supúnhamos Guaranis (como os Caiuás o são); até aos
quais periodicamente a Inspetoria de São Paulo e a de Mato Grosso havia feito
chegar auxílios pelo intermédio de um certo senhor Ramón Coimbra, que entre
eles morava e deles se inculcava desinteressado patrono. Supomos hoje que esse
pequeno grupo índígena seja da chamada nação Ofaié, com a qual a nova
Inspetoria de São Paulo e Sul de Mato Grosso (IR-5) -ao tempo de nossa chefia
nenhuma relação poude ter. (V. as tabelas numéricas dessa época e as verbas
orçamentárias destribuídas). Mas o de que guardamos nítida recordação é que
Pimentel Barbosa entrou em relação com
o Cel. Joaquim Nogueira, geralmente conhecido por Quincas Nogueira, "Gaúcho"
ocupante de terras com hervaes à margem direita do rio Paraná, cuja sede no
chamado Porto do Jacaré foi teatro de episódios de muita notoriedade por
ocasião da descida em retirada da coluna revolucionária de 1924, sob o comando
do General Isidoro.
Estávamos ainda com a Seção da Comissão Rondon, no Sul do Estado e
éramos delegado da Inspetoria do S.P. aos Índios por nomeação do Inspetor
Estigarríbia, quando aquele operoso auxiliar procurou-nos para solicitar
auxílio de transporte às terras ocupadas e tidas como próprias pelo Cel.
Quincas Nogueira, a fim de colher informações e dados técnicos que habilitassem
a Inspetoria a solicitar do Governo estadual a respectiva reserva de uma gleba
destinada aos índios, que atualmente vimos a saber serem da nação ou tribo Ofaié.
consultado nossas possibilidades, o atendemos pondo à sua disposição um
caminhão Ford com a respectiva guarnição, instrumentos e ferramentas adequados.
Ouvimos dele próprio haver encontrado da parte daquele fazendeiro boa vontade e
facilidades, graças às quais teria podido levantar um croquis de gleba
indígena e colhido informações completas sobre os índios da região, cujo
patrimônio territorial se tratava de resguardar.
Ao recebermos de volta o caminhão cedido, notamos alguns estragos, que
estranhamos, advertindo o motorista, que teria sido o índio Tereno Antônio
Calisto. Desculpou-se este com dizer que tivera de meter o carro por uma picada
a dentro, mas destocada, por ordem do auxiliar Pimentel, circunstância esta que
mencionamos aqui apenas a fim de comprovar a operação feita pelo referido
dedicado serventuário. Jamais até então havíamos sido Inspetor (hoje se diz
Chefe de Inspetoria) do SPI e da
Inspetoria sediada em Cuiabá, apenas éramos Delegado para o fim expresso do
regulamento citado (fls...). Cumprida as instruções de seu superior o Inspetor
Estigarríbia -teria por conseguinte o auxiliar Pimentel Barbosa remetido o
relatório e desenho respectivo para Cuiabá, onde se forem procurados,
forçosamente serão encontrados. Ao ser
destacado da primitiva e dilatosa Inspetoria, a região meridional do Estado
para formar a nova de S. Paulo e sul de Mato Grosso (hoje abreviadamente
designada IR-5) em 1929, era Inspetor ou chefe na Capital o Major Ramiro de
Noronha, a quem não tivemos ocasião de solicitar, nem dele recebemos esse relatório
e desenhos.
Entretanto, remetendo-nos em resumo de trabalhos e serviços em
andamento e programa no Sul do Estado, aquele Inspetor recomendou-nos uma
estrada expedita (trilha para os autos) atravessando as terras ocupadas pelo
Cel. Quincas Nogueira, que ia interessar à proteção indígena da região, e para
cuja escritura esse fazendeiro concederia todos os auxílios. Absorvida por
outras obras e problemas desde os Postos Indígenas de S. Paulo, onde ferviam as
questões das terras invadidas do P.I. do Araribá e Venuíre, como também as
obras difíceis da estrada para servir à reserva Cadiuéu, e, como golpe final a
situação de penúria e desorganização conseqüente aos acontecimentos de 1930, a
nova Inspetoria ficaria tolhida para toda e qualquer iniciativa nova. Não havia
dúvida que se tivéssemos podido atender à sugestões do Inspetor sediado em
Cuiabá, haver-nos-ía chegado a oportunidade de solicitar-lhe ditos documentos a
fim de concluirmos a solução iniciada antes de nós, do problema das terras dos Ofaiés
Do que precede sobre a situação profissional de auxiliar Pimentel
Barbosa, depreende-se que jamais poderia ter sido designado demarcador dessas
terras. apenas ele terá deixado assinalado ao terreno os limites, mais ou menos
particularizadamente, da gleba escolhida para a reserva que ia ser solicitada
ao Governo estadual. Seu relatório e desenhos deverão encontrar-se na sede da
I.R.-6 em Cuiabá, que poderá informar também se efetivamente com tais elementos
a Inspetoria pediu e obteve do Estado o respectivo Decreto. Quanto a nós,
jamais tivemos conhecimento disso.
Julgamos mesmo que não teve realização esse expediente oficial;
porquanto, se houvesse existido o Decreto da reserva legal, como não teria o Inspetor
Ramiro de Noronha obtido a respectiva demarcação para o Major Antônio Mena
Gonçalves, como fez em relação às outra glebas reservadas e até mesmo a da Colônia
do Buriti? Por que havia de deixar de lado essa dos índios Ofaié, em
zona que tanto lhe ficara conhecida e onde fizera tão valiosas relações e pela
qual demonstraria depois -aos passar-nos a região Sul- tão devotada atenção?
3. A propriedade das terras. Enorme confusão e engano havia em
considerar-se o Cel. Quincas Nogueira dono ou proprietário legal das terras
onde se acham encravadas as aldeias Ofaiés, o qual morreu assassinado
após 1932, cremos que por volta de 1938-9. Afirmamos isso baseado em que seus
herdeiros, defendidos, aliás, pelo hábil advogado do Mato Grosso atual, jamais
obtiveram o reconhecimento legal da ocupação; isto é, jamais puderam eles
exibir o título legal de propriedade das terras ocupadas. Ficaram elas por
conseguinte ao alcance legal de quem as requeresse do Estado; disto decorre
naturalmente o problema da defesa dos direitos naturais dos índios, de novo,
agora, posto em foco diante dos novos invasores a quem o Estado os haja vendido
ou esteja vendendo, sem prévia reserva para os índios já estabelecidos.
4. Conclusões-
A) O auxiliar Pimentel Barbosa não teria podido fazer nenhuma
demarcação legalmente autorizada, por falta de título de habilitação
profissional. Teria desempenhado a favor da tribo Ofaié a mesma
incumbência recebida da Inspetoria sediada em Cuiabá, relativamente à tribo
Caiuá, cujas glebas visitadas e selecionadas por ele foram demarcadas depois
por profissionais habilitados legalmente.
B) Os documentos, tais como relatório e desenhos, relativos aos
desempenho da incumbência teriam sido evidentemente remetidos para Cuiabá, sede
da Inspetoria de que a recebera, e jamais à do Sul do Estado, aliás, muito
posteriormente instalada.
C) Os mesmos documentos jamais foram enviados por aquela Inspetoria
(hoje IR-6) para a sua congênere (hoje IR-5).
D) Acontecia-nos mesmo jamais haver visto esse documento, como podia
ter-se dado, visto havermos sido nomeado Delegado da Inspetoria ao tempo em que o auxiliar Pimentel Barbosa foi
mandado servir no Sul do Estado; embora lhe tenhamos favorecido todos os
recursos solicitados para sua excursão à região dos Ofaiés, os quais
pertenciam à Seção da Comissão Rondon, em trabalhos de linhas telegráficas e
estradas de rodagem.
E) A IR-5 possuía até 1946 quando a chefiávamos, as plantas das terras
de Tehy-Cuê (P.I. José Bonifácio) e União (P.I. Benjamin Constant) devidas aos
trabalhos do auxiliar Pimentel Barbosa; porém não a da tribo Ofaié.
F) Entretanto, testemunhamos a realização da incumbência recebida do
Inspetor Estigarríbia pelo auxiliar Pimentel Barbosa a favor da tribo dos Ofaié,
cujos traços no terreno seriam facilmente encontrados se buscados por pessoas
capazes, que a IR-5 as possui; e cuja documentação estaria arquivada na sede da
IR-6 em Cuiabá.
Acreditamos haver exaustivamente informado tudo que nos permitia a
memória, que não sendo infelizmente favorável, pelo menos contém indicação para
outras pesquisas que o deverão ser decisivamente.
Saúde e Fraternidade.
Fonte: DUTRA, Carlos Alberto dos Santos. Ofaié,
morte e vida de um povo. Campo Grande: Instituto Histórico e Geográfico de
Mato Grosso do Sul, 1996. p. 295-302.
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