Os esquecidos indígenas Oti Xavante

Prof. Carlos Alberto dos Santos Dutra

Mestre em História pela UFMS

 

 

 

Foto de um índio Oti Xavante fotografado durante a Exploração do Rio do Peixe

pela Comissão Geográfica e Geológica do Estado de São Paulo, em 1913.

 

 

Quinta-feira, 1º de julho, encontro-me na cidade de Três Lagoas, Mato Grosso do Sul, e o celular toca. “Aqui é Maria Luiza, da Rede Globo, do programa Fantástico e gostaria de obter uma informação sobre a data da morte da índia Ofaié Xavante Maria Rosa que é apresentada no filme do Zelito Viana, pois sabemos que o senhor é um estudioso sobre esse povo. O senhor poderia nos ajudar?”.

 

A princípio me senti honrado em ter sido lembrado pela mais importante formadora de opinião do país, ao mesmo tempo em que manifestei preocupação pois me sentia, naquele momento, no dever de informar a jornalista global, que também é consultora da Unesco para a Funai, que na verdade a indígena a que ela se referia não se tratava de uma Ofaié e sim de uma Oti.

 

Ainda que correndo o risco de ouvir da repórter que minhas informações acabariam por “desmontar” sua reportagem em vias de ir ao ar, mesmo assim arrisquei contar-lhe uma outra história. Falei-lhe um pouco sobre a história da tribo Oti, habitantes do chamado Oeste paulista, a qual pertencia a indígena Maria Rosa, equivocadamente apresentada por Zelito Viana, em 1979, como Ofaié.

 

E rapidamente falei-lhe desses indígenas chamados de Oti Xavante e que foram criminosamente exterminados no início do século XX pelas frentes de expansão ferroviária e cafeeira que praticamente limpou os campos da região de Bauru avançando até as margens do rio Paraná comprimindo esses indígenas nos limites do vizinho estado de Mato Grosso do Sul.

 

O etnólogo alemão naturalizado brasileiro, Curt Nimuendajú, divulgou informações sobre “O Fim da Tribo Oti” ainda em 1910, porém, seu texto que só veio a lume no Brasil em 1982 pela editora Loyola. De outro lado, Darcy Ribeiro, em 1951, pela Revista do Museu Paulista, já descrevia uma “Notícia sobre os Ofaié-Chavante”, onde, subsidiado por Nimuendajú, informava sobre esses três grupos de indígenas que durante o período dos bandeirantes e expedições científicas foram motivo de muita confusão e equivocadamente todos apresentados pela historiografia simplesmente como “Chavantes”. Assim chamados porque habitantes das Savanas, o nosso cerrado do Centro Oeste brasileiro.

 

Na verdade eram os Akwê Xavante, do rio das mortes, no Mato Grosso, que se autodenominam Xavante; os Ofaié Xavante, da margem direita do rio Paraná, no Mato Grosso do Sul, que se autodenominam Ofaié, e os Oti Xavante, do lado paulista, na região de Campos Novos, hoje extintos, e que se autodenominavam Oti.

 

Em nossa obra “Ofaié, morte e vida de um povo”, editada em 1996, pelo Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso do Sul, na página 76 pensávamos ter corrigido esse erro ao escrever: “Em Terra dos Índios, produção da Embrafilme, o diretor Zelito Viana apresenta Maria Rosa, uma mulher Ofaié Xavante como sendo a última sobrevivente desta tribo, vivendo no Posto de Icatu, município de Bauru-SP. Na verdade trata-se de uma das últimas sobreviventes da tribo Oti e não Ofaié. Não tendo ninguém com que possa falar sua língua, prossegue a narração, Dona Maria Rosa, ao ouvir o gravador repetindo suas palavras, acreditou que pudesse estabelecer um diálogo com a máquina. Faz perguntas como: Cadê meu pai?, Cadê minha mãe”.

 

Hoje sabemos, Maria Rosa faleceu em outubro de 1988, com 122 anos de idade neste mesmo Posto Indígena de Icatu. A notícia foi divulgada pelo jornal Estadão através da sucursal de Marília pelo jornalista Luis Carlos Lopes e reproduzida pelo Correio do Estado de Campo Grande-MS, no dia 24 de outubro de 1988, página 16. Aqui em Brasilândia, na margem sul-mato-grossense do rio Paraná, o ex-cacique Ofaié, Ataíde Xehitâ-ha, olha para sua aldeia formada por mais de 60 pessoas e sorri. Diz para mim que viu a reportagem e não entendeu nada do que a mulher falou. “Ela falava uma língua muito distante da do meu povo”, me confidencia.

 

O Fantástico do dia 10 de outubro, 16 anos após a morte de Maria Rosa nos brindou com uma reportagem sobre uma tal cena mágica buscando mostrar através da obra de Zelito Viana que o cinema é mais do que simples imagens em movimento. Disse bem, ele pode narrar vidas e descobrir verdades. No caso da velha Oti Xavante entrevistada pelo cineasta, entretanto, a reportagem em nada contribuiu para corrigir o equívoco levado ao ar, ao chamá-la de “ultima Ofaié”. Fez pouco causo das informações que lhe foram repassadas três meses antes.

 

Hoje não existem mais Oti para pedir reparação ao dano praticado. Resta aos telespectadores o consolo de poder buscar em algum livro escondido nalguma prateleira singular um cadinho da verdade sobre a história do massacre praticado contra esse povo e que resultou na dizimação dos Oti da margem direita do Paranapanema.

 

Autores como João Francisco Tidei de Lima e Nímenon Suzel Pinheiro, em trabalhos acadêmicos recentes pela USP e pela UNESP revelam com maestria a quem interessa ocultar como se deu a destruição desses Oti e Kaingang que povoavam o Oeste paulista. Em tempos não tão recuados, foi sem dúvida, a história e seus manuais didáticos de divulgação –entre eles, agora, o Fantástico--, que se encarregaram de riscar do mapa essas populações incômodas cujo silêncio ainda hoje sobre elas perdura a desinformação.

 

Artigo publicado no Jornal da Cidade, Brasilândia-MS, 30.Set.-23.Out.2004; Diário MS, Dourados-MS, 21. Out.2004; Leste Notícias, Presidente Prudente, 21.Out.2004.