Morre o indígena Ofaié, Felipe Martins de Oliveira

Carlos Alberto dos Santos Dutra

(Publicado no Jornal da Cidade, Brasilândia-MS, 01-05.Jan.2005)

 

Faleceu no dia de 2 de janeiro de 2005, domingo último, no Hospital de Brasilândia, o indígena Ofaié, Felipe Martins de Oliveira, de 69 anos de idade. Felipe tinha na língua materna o nome de Totê, era um homem ainda forte. Pai de Cleuza e Ataíde, havia nascido nas terras da antiga Fazenda Boa Esperança, quando ela ainda pertencia aos norte-americanos de Portland, e integrava o grupo The Brazil Land, Cattle and Packing Company. 

 

Como todo o povo indígena, viveu praticamente anônimo para a maior parte das pessoas. Exceto para os historiadores que encontram seu nome citado por viajantes célebres como Nimuendajú e Tenente Vasconcellos, que no início do século XX navegaram pelas margens do rio Verde e Paraná, arrebanhando todos os indígenas que por aí viviam. Seu pai e o restante de muitos de seus familiares foram retirados dessa região que nessa época pertencia ao município de Paranaíba e foram levados, por volta de 1913, para a região de Ivinhema. Em 1924 o Posto do Laranjalzinho, no Ivinhema fechou e os indígenas Ofaié e Kaiowá que foram para lá levados de várias partes do Estado, voltaram para suas regiões de origem. O pai de Totê, Barbosa Martins de Oliveira e Jandira Martins de Oliveira, alojam-se então novamente nessa região onde Brasilândia ainda nem existia.

 

Felipe nasceu em 1935, no dia 6 de janeiro. Aqui teve sua família e entre o cerrado, trabalhando pelas fazendas que aos poucos iam se instalando por aqui, vai passando os anos e vendo essa terra surgir. Felipe faleceu 4 dias antes de completar 70 anos. Sofria de pressão alta e diabete. Depois de vários dias internados em Brasilândia, na virada do ano, seu estado piorou e dois dias depois veio a falecer. Aliás, esse é um mal que acomete a grande maioria dos Ofaié. Fruto do excesso do consumo de sal introduzido na dieta pelo não-índio em suas cestas básicas? Ou fruto da tensão assimilada durante anos, provocada pelas constantes perseguições e lutas que tiveram que enfrentar contra os proprietários que, vindos do sul e do leste, lhes usurpavam as terras?

 

Felipe foi enterrado na própria aldeia Ofaié no dia 3 de janeiro, e o Vereador Prof. Carlito lá esteve para prestar sua última homenagem ao velho líder indígena. Teve a oportunidade ali de cantar, ao lado dos demais indígenas, seu arikã de despedida. Vá para agachô, velho Totê. Vá para Cho-ê. E olhe por nós!, concluiu o indigenista que por mais de 15 anos pesquisa a história desse povo e os tem ajudado a inseri-los novamente nos contornos da história.