Sebastião na Fazenda Almeida, Brasilândia-MS (Foto:
C.A.S.Dutra, 1986)
"A morte, em qualquer circunstância, sempre choca o coração do homem. No caso dos índios Ofaié, há tempo ela ronda este povo que historicamente tem fugido da extinção. No mesmo ano da morte de Alfredo, no dia 25 de janeiro de 1988, o acampamento desses índios vivera outro momento de dor e desencanto. Neste dia, a margem direita do rio Paraná amanheceu com um estranho brilho no desgastado colorido dos barracos de lona e bacuri utilizados como abrigo da aldeia [1]. Não que as águas poluídas e manchadas de óleo onde diariamente os índios são obrigados a beber e que lhes acarretam inúmeras doenças, tenham se purificado. Não que a Funai tenha criado vergonha na cara e lhes tenha trazido a tão sonhada notícia da demarcação de suas terras imemoriais; não que os céus e uma legião de anjos em procissão lhes tenham restituído a dignidade perante o divino e os homens, senhores de sua história e filhos do cosmo; não que o latifúndio cristão e suas igrejas celestes tenham se convertido à Justiça e providenciado a partilha com a devolução da terra outrora, criminosamente roubada.
O dia amanheceu sombrio e mesclado de um tom escuro que adentrava a alma deste povo decadente prenunciando lamento e morte. Era como se o próprio reflexo da condição histórica de humilhação lhes reservasse uma fatídica realidade, nada diferente da de um genocídio silencioso e persistente, às vezes assistemático, mas sempre eficaz [2]. Tombava neste dia o jovem Sebastião de Souza, índio Ofaié, em seus 14 anos de sofrimento nas andanças errantes de seu povo pelos corredores do latifúndio. Expulsos das fazendas mendigando a piedade das estradas como anônimos mutantes, debaixo do sol e da maldade imigrante, assistem há séculos a depauperação do Oeste brasileiro. Sem infância, só viu ganância que brotava das patas de ricos senhores e seus bovinos métodos de extermínio. Desta doença, afinal, a maior parte de seu povo morreu. Só que sua dor era ainda maior.
--Meningite tuberculosa, --disse o médico em São José do Rio Preto, no vizinho Estado paulista, para onde fora levado. Ao lado do corpo franzino a mãe balbuciava palavras muito próximas aos olhos de seu menino agonizante. Eduardinho de Souza, o pai, que observa a cena calado, num gesto espontâneo e silencioso, toca a mão do missionário que se encontra ao lado: --Salva ele pra mim... sussurra. Mas o corpo já tão débil não suportou o tratamento. E morreu em terra estranha.
Depois das dificuldades para liberar o corpo, --para não ser enterrado como indigente--, teve de ser raptado pelo missionário do Cimi e trazido no colo, madrugada à dentro, transladado para Brasilândia, com o providencial auxílio do amigo, Profº Dalve Manoel dos Santos, da CPT. A índia Maria Aparecida de Souza, a mãe, o pai, irmãos e parentes, naquele dia experimentaram novamente o luto e choraram a amarga dor da partida, ainda tão cedo, de sua criança, daquele menino que era todo sorriso. No acampamento após o enterro --onde cada Ofaié foi dar o seu arikã (adeus, na língua Ofaié) de despedida--, o que restou foi desespero e revolta. Como num réquiem, preludiando o funeral da saudade (...).
[*] Publicado em Dutra, Carlos Alberto dos Santos. O mendigo das estrelas: textos brasilandenses. São Paulo: Scortecci/FIC-MS, 2005, p. 2-23.
[1] - Jornal Tempo, Três Lagoas, 4. Mar. 88, e Jornal dos Movimentos Populares, Campo Grande, nº 11/98.
[2] - LOPEZ, Luiz Roberto. História do Brasil Colonial. 2. ed. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1983, p.20.

Sebastião, Arlindo, José e João Carlos nas margens do rio Paraná, Brasilândia-MS (Foto: C.A.S.Dutra, 1986)

(Sentados) 4 jovens Ofaié: (E) João Carlos, José, Arlindo e Sebastião. (Em pé) os Ofaié (D) João de Souza e Eduardinho, e o assistente José Luiz (Foto: C.A.S.Dutra, 1986)

Crianças Ofaié (E) Sebastião, José, João Carlos e Arlindo (D), na Fazenda Pirajuy, Brasilândia-MS (Foto: C.A.S.Dutra, 1987)