ALFREDO COIMBRA VIVE!

Carlos Alberto dos Santos Dutra [*]

 

"O tal índio faleceu no dia 28 de novembro de 1988, no Hospital da Missão Kaiowá, na cidade de Dourados, neste estado de Mato Grosso do Sul. Ele chamava-se Alfredo Coimbra [1], era da tribo Ofaié, erroneamente chamada de Xavante, e tinha idade próxima aos 90 anos. Morreu vítima de tuberculose. Alfredo era provavelmente um dos últimos sobreviventes da antiga geração de Ofaié que dominou a margem direita do rio Paraná até o início deste século XX. Era viúvo da are (avó, na língua Ofaié) Eugênia da Silva, nascida em 28 de março de 1889 na aldeia Esperança, no interior do município de Brasilândia, conforme dados que constam em seu Registro de Nascimento.

Como todo velho, Alfredo morreu só. O que restou de sua tribo, acampada até sua morte na barranca do rio Paraná, não teve forças suficientes para romper com a sorte e modificar-lhe o destino. Cego de um olho que perdeu durante uma caçada de onça [2] pelos matos da margem do rio Taquaruçu, nos últimos anos assistiu seu povo ser dizimado e marginalizado na própria terra que viu nascer.

--Porque aqui, antes, era tudo mato. Até que o branco descobriu aqui, dizia o velho sorrindo. Debilitado pelas perseguições e andanças teve ainda de assistir, no final da vida, ser rejeitado pelo hospital de Brasilândia.

--Ele está velho, dizia a médica. --Bronquite crônica, dizia o médico. --A escória, pensou o mendigo, --Tratamo-la com lenitivos!

Apesar do esforço das enfermeiras locais que, atenciosas e prestativas, minimizaram suas dores, Alfredo teve de ser removido para outra cidade. Sua última consulta, entretanto, tiveram o despautério de cobrá-la em cruzeiros, moeda da época.

O mendigo ainda lembra que durante o velório e enterro deste pioneiro, ainda que esquecido brasilandense, diversas pessoas amigas e sensíveis à causa nobre dos Ofaié foram levar sua solidariedade e esperança àquele povo sofrido. Entre as autoridades presentes, lá estavam a então vereadora e vice-prefeita eleita na época, Marilza Maria Rodrigues do Amaral, bem como o então vereador Marcílio Borges Pedroso, que foram solenemente prestar sua última homenagem e o providencial auxílio no transporte dos parentes do defunto até o cemitério municipal.

A comunidade brasilandense, através das firmas Irineu Gaiotte, Depósito Gaivota, Sr. Isac Honorato Barbosa, Depósito São Francisco, Comercial Lisboa, Posto Roledo entre outros, sensibilizaram-se com o passamento do velho índio. Estiveram presentes diversos professores e dezenas de alunos da escola estadual Adilson Alves da Silva que igualmente prestaram solidariedade e admiração aos valorosos e antigos Xavante que delimitaram as fronteiras desse município.

Durante a celebração presidida pelo padre Lauri Vital Bósio, pároco da cidade, pronunciou um belo discurso o Sr. Hilário Paulus, Coordenador Regional do Cimi e o índio Ataíde Francisco Rodrigues, Cacique Ofaié, lembrando que o vô Alfredo era um manso de coração. A Diocese de Três Lagoas fez-se representar pela CPT-Comissão Pastoral da Terra.

--O velho Alfredo, murmurou o mendigo, embora morto, viveria na memória de seus patrícios. Alfredo viverá junto àqueles que até bem pouco tempo sobreviviam acampados na barranca do rio Paraná. --O que se pode dizer sobre esse fato, passado dez anos de sua morte? --Que o sonho de Alfredo ainda está por se realizar. Sua tribo ainda vive a espera de melhores dias.


[*] Publicado em Dutra, Carlos Alberto dos Santos. O Mendigo das Estrelas: Textos Brasilandenses. São Paulo: Scortecci/FIC-MS, 2005, p. 20-22.

[1] - Jornal  de Brasilândia, 24. Dez. 88.

[2] - DUTRA, Carlos Alberto dos Santos. Ofaié: morte e vida de um povo. Campo Grande, Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso do Sul, 1996, p. 131.

Vô Alfredo em seu velório na Igreja Matriz de Brasilândia-MS (Foto: C.A.S.Dutra, 1988)

Vô Alfredo em seu velório na Igreja Matriz de Brasilândia-MS (Foto: C.A.S.Dutra, 1988)

"Alfredo Coimbra ou Ekureifyg. Líder Ofaié. Ao longo de sua vida, viu seu povo ser exterminado e até ser declarado como extinto, em 1970. Assistiu, em data não precisa, talvez na década de 1940, o massacre de 12 Ofaié, mortos a tiros, à beira do rio Paraná. As cabeças dos mortos foram cortadas e deixadas expostas por muito tempo. Aos 88 anos de idade, Alfredo Coimbra, também conhecido como Vô, já muito doente, procurou o hospital da cidade de Brasilândia (MS), localizado em terras onde ele e seu povo já habitara. O atendimento foi recusado e Alfredo veio a falecer alguns dias depois no Hospital da Missão Evangélica, de Dourados, em 22 de dezembro de 1988". (Fonte: Outros 500 anos: construindo uma nova história / Conselho Indigenista Missionário - Cimi. São Paulo: Editora Salesiana, 2001, p. 214).