ÍNDIO, INTERNET
E BALANÇA COMERCIAL.
O jornalista Paulo Rocaro, publicou dias atrás um artigo sob o título “chamem os antropólogos, urgente!”. Critica o autor a visão, segundo ele, de alguns antropólogos que “parecem ter parado no tempo” quando saem em defesa da preservação dos costumes indígenas “e coisas desse tipo”, ironiza o jornalista pontaporanense. Ao apregoar “o aculturamento” dos povos indígenas, o autor deixa claro sua posição integracionista, caso contrário, avisa: “se eles não se integrarem à cultura branca vão acabar igual aos índios americanos: mortos de fome”.
O neo-escritor em sua apologia desenvolvimentista, contudo, equivoca-se, e aqui peço vênia para discordar de suas idéias publicamente. E não vou muito longe para refutar suas palavras em desabono aos antropólogos –em especial ao Dr. Rubens Thomaz de Almeida--, contra quem o articulista aponta sua espingardinha de rolha. É o texto que se encontra logo abaixo do artigo do articulista Rocaro, na página do jornal Diário MS do dia 17 de março, de autoria do Prof. Lincoln Christian Fernandes, sob o título “conflitos no campo”, que nos auxilia na resposta.
O citado professor comenta uma reunião que participou dois dias antes, hoje sabemos, com um renomado antropólogo de Brasília, Luiz Tarlei de Aragão (cujo reflexo de sua exposição aos produtores rurais de Dourados mereceu destaque na imprensa em Londres!, imagine, informa-me um correspondente via e-mail). Para esse professor o problema das invasões indígenas é internacional. A visão apreendida da palestra assistida motiva-o a ampliar o olhar para uma análise macro do problema.
Aqui, percebe-se, a questão gravita em torno do lugar social de onde parte a observação. O professor aponta para um olhar sobre a realidade de maneira “menos antropológica e mais econômica”, como ouviu na palestra. Aqui, portanto, parece estar o X do problema. Se observarmos a realidade sob o olhar economicista haveremos de concordar que os povos indígenas não passam de estorvos e impedimento ao desenvolvimento do Estado brasileiro. Nesse olhar, comete injustiça quem não reconhecer “o valor daqueles que são os responsáveis pelo superávit da balança comercial”, ou seja, os produtores rurais, num mundo onde a economia de subsistência familiar não vigora.
Na perspectiva de um Brasil (e seus homens do campo) “próximo a se tornar os maiores produtores de tudo do mundo”, é óbvio que os povos indígenas e todas as suas dificuldades “para fazer a terra produzir” –reconhece o professor--, civilizar o índio (para torná-lo produtor) é um imperativo. E nessa linha de pensamento há quem defenda uma integração sumária, dentro de um tempo cronológico determinado, sob pena dessas dívidas históricas de exclusão jamais serem pagas. Mas há também quem defenda essa mesma integração, só que dentro de um outro tempo, o tempo histórico proposto por historiadores e antropólogos.
Aqui o discurso comumente é distorcido e ao longo dos anos ele tem sido falseado no curso de uma história via de regra construída pelos grandes proprietários e o círculo de influência que exercem sobre a sociedade e a produção do conhecimento. Nesse olhar, a integração respeita o dado da cultura, o tempo histórico de povos ágrafos, lunares e de cosmologia ainda hoje objeto de pesquisa, em oposição ao mundo da escrita, da técnica, solar e de racionalidade lógico-formal. Entender culturas complexas, construídas dentro de um processo de trocas, mudanças, perdas e ganhos, na fronteira de mundos distintos, mas nem por isso excludentes, é esse olhar que nos permite ver esses povos em permanente interação, sobreposição, inculturação, no cotidiano de suas construções simbólicas e materiais.
Mas esse discurso é por demais complicado para a bota do agromen e o esterco preso a ela; é mera divagação para seus interesses mediatos, turbinados, todo cifra. Quando não isso tem sido atribuído à forças alienígenas desestabilizadoras da ordem nacional e coisas do gênero. Quando a Constituinte, há quase vinte anos atrás, propôs um Brasil pluriétnico, a idéia, tida como perigosa, foi rejeitada. Ainda assim, na prática, é inegável o fato de que no país convivem culturas distintas, cada uma com seus rostos e tempos históricos próprios. O que não nos autoriza, portanto, e inviabiliza qualquer discurso e práticas que subjuguem uma cultura à outra, seja pela força, seja pelo domínio da técnica ou conhecimento privado.
Seduzir o indígena com a Internet, como sugere o jornalista Rocaro, ou ainda lastimar que as reservas indígenas e as reservas ambientais estão “segurando o crescimento do Brasil”, nas palavras do professor Lincoln, é uma bela forma de embaralhar bem as cartas e sentenciar os povos indígenas em seus destinos. É vulgarizar a idéia de que nessa correlação de força, os povos indígenas já perderam, e devem ceder espaço ao caminhão graneleiro exportador que se lhe estaciona no pé da aldeia.
Para o jornalista fica a palavra do professor. Pois de nada valerá a reflexão (seja a reproduzida na mídia, seja a ministrada na cátedra) se tomarmos por base o equivocado entendimento, para não chamá-lo de ingênuo. Perder-se-á toda a semente lançada se acharmos que a “dívida histórica para com os nativos da terra” poderá ser paga sem a devida parcela de contribuição “dos desbravadores das terras que fazem o Brasil”, ao lado do Estado, os maiores responsáveis por toda essa situação.
Publicado no
jornal Diário MS, Dourados-MS, 25 de março de 2004,
e A
Tribuna, Campo Grande-MS, 28 de março a 03 de abril de
2004.