"Serviço de Proteção aos
Índios. IR-5.
RELATÓRIO DA VIAGEM FEITA À
CIDADE DE TRÊS LAGOAS, CONFORME ORDEM DE SERVIÇO Nº 14 DE
14-9-1953.
Sr. Chefe da IR-5. Dando cumprimento de vossa ordem de serviço nº 14 do
corrente, pelo presente venho prestar-vos conta como segue: Parti da cidade as
22 horas de 14 do corrente, chegando em Três Lagoas, no dia seguinte as 12:10,
almoçando logo após a chegada, e em seguida fui procurar o Sr. Dr. Sebatião
Vieira, Delegado de Polícia, daquela cidade, que cumprindo o que aqui prometeu,
prontificou-se com muita boa vontade, e com ele combinamos para seguir na manhã
seguinte até o acampamento dos índios, tendo na tarde desse dia, aproveitado
para visitar as autoridades locais, e junto com o Sr. Delegado, fomos a
Prefeitura, a Câmara Municipal e no dia seguinte, as 6:20 horas, em companhia do
Sr. Dr. Sebastião Vieira e o Sr. Eucário Freire, dono do jeep, seguimos rumo ao
Rio Verde.
Antes de chegarmos na ponte do Rio Verde, encontramos o Sr. Manoel Aníbal
que é o homem que o Dr. Sebastião encarregou de atender os índios, e a quem lhe
foi confiado também de ser o depositário dos gêneros que foram arrecadados no
comércio de Três Lagoas, que apesar de morar a 4 léguas distante onde estão os
índios, assim mesmo é o vizinho mais perto, que está fazendo a distribuição
racional dos gêneros aos índios, cujo Sr. Manoel Aníbal fez companhia, e assim,
seguimos viagem, indo chegar na ponte do Rio Verde as 9:00 horas, onde estava
uma turma de trabalhadores na construção da estrada e da ponte, para em seguida
seguirmos, as 10:20 horas.
Chegamos no acampamento dos índios distante uns 3 quilômetros da referida
ponte, pelo que observei e fiz o seguinte: Para poder fazer o recenseamento
exato, ouvir com precisão os índios, observar com bem atenção, e como os Srs.
Dr. Sebastião Vieira e Eucário Freire tivessem que voltar neste dia, eu fiquei
na aldeia, em companhia do Sr. Manoel Aníbal, voltando a pé e pernoitei no
acampamento da turma nas proximidades da ponte do Rio Verde, onde esperamos o
caminhão da Prefeitura que foi nos conduzir para Três Lagoas. O Sr. Manoel
Aníbal ficando onde deixou o seu animal, e eu segui chegando em Três Lagoas
pouco mais do meio dia, tendo tempo de obter diversos documentos que adiantei os
quais adiante tratarei.
Contei 6 casebres cobertas de palha, nas quais 14 famílias compostas de
58 pessoas, entre maiores e menores de ambos os sexos, sendo informado que
existem muitos outros que andam caçando. Me disseram que já derrubaram cinco
alqueires de mato para a plantação. Observei serem índios, fortes, me informando
que as vezes sofrem de maleita. O lugar onde está a aldeia é seco, com boas
aguadas, lugar esse denominado córrego Puladouro, e é distante de Três Lagoas,
51 quilômetros, por boa estrada nova da qual o Sr. Trajano dos Santos,
Secretário da Câmara Municipal forneceu-me informações por escrito, que vai
junto ao presente, assim como vão também duas declarações, uma do Sr. Dulcidio
da Costa Dias, Prefeito Municipal, que afirma conhecer a tribo de índios
Xavantes, dentro do perímetro da fazenda "Boa Esperança", e afirma ainda que os
remanescentes desses índios moram atualmente a 3 quilômetros da ponte do Rio
Verde, entre o córrego Puladouro e Beleza; outra do Sr. Antônio Carvalho,
Presidente da Câmara Municipal, que conhece a região da fazenda Boa Esperança,
por ser morador antigo, e conhecem uma tribo de índios Xavantes que calculava em
60 almas, cujo grupo acha atualmente adeiados entre os córregos Puladouro e
Beleza, perímetro da mesma fazenda Boa Esperança, e mais um atestado assinado
pelo Sr. José Antônio Trindade, Sub-Delegado de Polícia, que atesta, por ser do
seu conhecimento, como é do conhecimento público, que existe um Distrito de
Xavantina, zona do Taquaruçú, Rio Verde e Água Limpa, uma tribo de
aproximadamente setentas almas; as autoridades acima são da sede do município de
Três Lagoas, que como está provado, os índios são natos das terras da fazenda
Boa Esperança, e ali devem permanecer.
Falei com o chefe da tribo Caetano Coimbra, que fala regularmente o
português, informando-me que seus pais e avós sempre viveram, tendo diversas
moradas, no lugares chamados: Barreiro, Cachoeirinha. costa do Rio Paraná, e
outros lugares dentro da fazenda Boa Esperança, e que há anos que os que querem
ser donos da fazenda, não querem mais eles naquelas terras, e por isso vieram na
cidade de Três Lagoas se queixarem, e que as autoridades dessa cidade e o povo
estão ajudando, estando agora contentes. O Sr. Manoel Aníbal, o homem que está
cuidando desses índios, também deu as mesmas informações, que conhece esses
índios desde há muito anos, que as vezes desaparecem, passa anos, tornam a
aparecer, e dizem que estiveram caçando ou pescando, porém dentro da fazenda Boa
Esperança, que tem cerca de cem léguas quadradas.
O índio chefe dos demais, com a denominação de Capitão, ao contar-me que
já estão em 5 alqueires de mato roçado, pediu-me, até plantem e colham, para
mandar gêneros seguintes: arroz, açúcar, feijão, sal, sabão, pratos, canecos,
colheres, bacia grande, fumo e querozene. Finalizando este meu Relatório, devo
dizer a essa Chefia que todas as autoridades da cidade de Três Lagoas
demonstraram coração puro de brasileiros conscientes dos deveres humanos com os
nossos índios, e eu recebi das autoridades daquela cidade, as mais inequívocas
provas de cavalheirismo, cercado de atenções. O Sr. Dr. Sebastião Vieira,
Delegado de Polícia, assim que chegou em Três Lagoas, encontrou um telegrama
noticiando o falecimento de seu velho pai, ocorrido em São Paulo, para onde
seguiu de avião, não esquecendo, porém, de deixar recomendado aos seus amigos
para me atenderem. São assim relatados o que fiz nessa minha viagem. Campo
Grande, 21 de Setembro de 1953. Ass.
Francisco Ibiapina da Fonseca
Inspetor ref. 25
RECENSEAMENTO DOS ÍNDIOS
XAVANTES
Em 20 de Setembro de
1953.
NOMES INDÍGENAS NOMES EM PORTUGUÊS IDADE SEXO EST.CIVIL
1 Cap. da Aldeia Caetano Coimbra
70
M
Cas.
2
Chiquita Sousa
66
F
Cas.
3
Eurides Coimbra
10
M
Solt.
4
Tomaz Coimbra
12
M
Solt.
5
João Buriti
36
M
Cas.
6 Nauá
Licia Buriti
30
F
Cas.
7
Decidio Coimbra
2
M
Solt.
8 Nauazinha
Lidia C. Buriti
3
F
Solt.
9
Luiz Nauá
38
M
Cas.
10
Rosa Nauá
26
F
Cas.
11
Otacílio Nauá
4
M
Solt.
12
Emídia Nauá
2
F
Solt.
13
Libério Torél
69
M
Cas.
14
Pililí Torél
58
M
Cas.
15
Orlando Barbosa
28
M
Cas.
16
Felomena Barbosa
16
F
Cas.
17
Ana Velha
60
F
Viúva
18
Sebastiana Barbosa
7
F
Solt.
19
Teresa Barbosa
4
F
Solt.
20
Manoel Barbosa
20
M
Solt.
21
Paulino Coronel
70
M
Cas.
22
Felomena Braga
66
F
Cas.
23
Eduardo Braga
19
M
Solt.
24
João Braga
7
M
Solt.
25
Barbosa Antônio
80
M
Cas.
26
Maria Barbosa
70
F
Cas.
27 Felipe Barbosa
18
M
Solt.
28 Jeta
José Barbosa
40
M
Solt.
29
Izidro Barbosa
38
M
Solt.
30
Antonio Felipe
75
M
Cas.
31
Maria Barbosa
70
F
Cas.
32
Felipinho Barbosa
10
M
Solt.
33
José' Barbosa
30
M
Cas.
34
José' Tatá
30
M
Cas.
35
Fª Maria Tatá
22
F
Cas.
36
Dirce Tatá
1
F
Solt.
37
Maria Tatá
14
F
Solt.
38
Cândida Tatá
10
F
Solt.
39
André' Tatá
17
M
Solt.
40
Antônio Lacranha
48
M
Cas.
41
Izabel Lacranha
36
F
Cas.
42
Menina Lacranha
2
F
Solt.
43
Itá Lacranha
16
F
Solt.
44
Saloia Lacranha
1
F
Solt.
45
Manoel Pelado
36
M
Cas.
46
Eugênia Pelado
40
F
Cas.
47
Henrique Pelado
18
M
Solt.
48
Joana Velha
68
F
Viuva
49
Oscar Pelado
36
M
Cas.
50
Gurí Pelado
2
M
Solt.
51
Alfredo Gaspar
34
M
Cas.
52
Manoel Gaspar
40
M
Viúvo
53
João Gaspar
10
M
Solt.
54
Barbara Velha
72
F
Viúva
55
Waldomina Coimbra
21
F
Solt.
56
Eduardo Coimbra
3
M
Solt.
57
Juracy Coimbra
2
M
Solt.
58
Chucha Jetá' (Irma)
36
F
Cas.
Campo Grande, 21 de Setembro de 1953
Ass. Franciscco Ibiapina da Fonseca
Insp. Ref. 25
Fonte: Dutra, Carlos
Alberto dos Santos. Ofaié, morte e vida de um povo.
Campo Grande: Instituto Histórico e Geográfico de Mato
Grosso do Sul, 1996, p. 137-141.