A reportagem do
jornal O Estadão
"DOENÇAS DIZIMAM GRUPO XAVANTE DE MATOGROSSO".
(Da Regional de Marília. O Estado de São Paulo, 06.08.76)
Depois de formarem um grupamento que no
final da década de 40 contava com mais de 200 habitantes, os índios Xavantes, da
Aldeia Esperança, em Brasilândia-MT, estão em extinção: o sarampo, a varicela e
a catapora contraídas nos primeiros contatos com os brancos e que provocaram
dezenas de mortes, foram substituídas pela tuberculose, anemia e pelo
alcoolismo. Os 24 remanescentes da tribo continuam morrendo e num ritmo cada vez
mais intenso, o que fatalmente provocará seu total desaparecimento nos próximos
anos, caso não sejam adotadas urgentes providências para sua
proteção.
Os Xavantes, que há 50 anos dominavam toda a
região de Brasilândia, a Sudeste do Mato Grosso, foram expulsos de suas terra
pela invasão branca e em lugar das poderosas aldeias sobraram apenas grupos
isolados. Um deles ainda sobrevive, apesar do completo abandono. A Funai ou
qualquer outra entidade jamais esteve visitando aquela aldeia, constituída de
seis casebres, precariamente construídos numa clareira da Fazenda Boa Esperança.
A terra não lhes pertence e apesar da concessão verbal do proprietário, que
parece não se incomodar com a presença dos índios, é impossível desenvolver
lavouras, a não ser pequenas roças de arroz: a tribo não tem auxílios externos,
nem ferramentas para explorar o solo, cada vez menos
produtivo.
De resto, a caça e a pesca desapareceram e
os únicos seis homens em condição de trabalho, se transformaram em
"boias-frias", para quem a renda semanal é suficiente apenas para reforçar os
estoques de bebida, especialmente a pinga. A única assistência, da Prefeitura de
Brasilândia e de um grupo religioso, é suficiente apenas para amenizar os
problemas e para comprovar o estado geral de debilidade: além de apresentarem
evidentes sinais de anemia, os 24 índios são cada vez mais afetados pela
tuberculose, doença que só nesse ano já ocasionou duas mortes. A tal ponto que
mesmo as crianças, submetidas à testes recentemente, mostraram ser portadoras do
vírus da moléstia. Mais grave: o alcoolismo contribui para debilitar ainda mais
os homens, as mulheres e até algumas crianças, numa escalada tão intensa que a
maior parte já não se adapta mais ao trabalho e parece não se incomodar com a
fome, que às vezes domina durante vários dias.
Sua própria cultura caminha para a extinção.
O Chefe, José Táa, de 62 anos, lamenta que seus conselhos não são mais seguidos
pelos jovens que se recusam até a conservar a tradição de fabricar suas próprias
armas -arcos e flechas. Da mesma forma ninguém o atende quando recomenda a
redução do consumo de bebida, assim como poucos são os que seguem sua orientação
para cultivar suas próprias roças. "Antes -conta- quando tínhamos nossa própria
terra, o Chefe era respeitado e seu desejo era a lei. Agora nossos homens não
obedecem e até as jovens se casam sem pedir nosso consentimento". contudo, José
Táa ainda tem um orgulho. Por enquanto, apenas uma mulher abandonou a tribo para
se unir a um branco que reside em São Paulo. Os demais continuam vivendo em
função da própria família e não ocorrem casos de mistura das raças, o que, em
sua opinião é de fundamental importância para conservar a aldeia. Mesmo porque,
ele acredita que a infiltração de brancos entre os índios somente provocará a
divisão da tribo e acelerará o seu fim.
A Caça. "Quando há comida, comemos e quando
não há, às vezes passamos vários dias sem qualquer alimento, até que alguém
consiga alguma caça". Para o Chefe, a alimentação é o principal problema de seu
povo especialmente para as 10 crianças da tribo. A falta de terras e de qualquer
apoio oficial não lhes permite aprimorar as lavouras da mesma forma como os
impede de criar seus próprios animais. Naquela aldeia não há rezes ou cavalos e
o máximo que conseguem criar são alguns porcos e galinhas que os índios preferem
vender, obtendo assim mais dinheiro para a bebida. As crianças não tem leite e
compartilham da alimentação básica da tribo: arroz, farinha e raramente
mandioca. Quando a fome é forte, os mais velhos ainda saem para a caça, mas o
máximo que conseguem são alguns tatús e tamanduás. Às vezes conseguem mel. Os
índios não possuem armas para a caça. Até a pesca é limitada. O único córrego
onde tentam apanhar peixes é o que passa próximo a aldeia e onde a piscicultura
é cada vez mais difícil. Só quando a fome é demais é que alguns mais corajosos
se atrevem a sair à noite para tentar a sorte nos açudes das fazendas próximas,
onde o peixe é farto mas a pesca é proibida. A tal
ponto chegaram as dificuldades que esses índios aproveitam normalmente a carne
de animais que encontram mortos, ainda que estragadas.
Isolamento total agrava situação. Na
precária passagem de 5 quilômetros que separa a Aldeia Esperança da estrada que
liga Brasilândia à Xavantina, não há marcas de pneus ou de animais que permite
supor que ela venha sendo utilizada regularmente. Por ela, com exceção da
ambulância do Município que trafega para atender os doentes mais graves, só
passam os próprios índios, nas viagens até à cidade, a 17 quilômetros de distância. A aldeia
Esperança é o reflexo da própria situação em que se encontram seus habitantes:
seis casebres cobertos de sapé têm as paredes revestidas de barro e em seu
interior, apenas uma cama de varas. De resto, apenas algumas roupas pessoais e
alguns vasilhames de água.
Localizada na Fazenda Boa Esperança, a
aldeia é apenas um ponto isolado de uma gleba com mais de 10 mil alqueires, onde
o homem civilizado só começou a chegar há alguns anos, para mudar os costumes e,
recentemente, instalar o primeiro posto do Mobral, onde o professor é um jovem
índio -Athaíde- de 18 anos, o único que conseguiu estudar até o terceiro ano
primário. Hoje, a sala de aula funciona à noite em um dos casebres para seus
oito alunos. Na falta de lampiões são usadas lamparinas, cujo lume deficiente
somente agrava os problemas visuais
dos índios.
Naquela aldeia, ninguém jamais ouviu falar em Funai ou em qualquer outro órgão de assistência aos índios. Na verdade, poucos acreditam que a Funai conheça a existência daquela tribo. Mesmo porque, a própria população de Brasilândia ainda desconhece a aldeia e só algumas autoridades diretamente ligadas ao Prefeito se preocupam com ela.
Publicado em
Dutra, Carlos Alberto dos Santos. Ofaié, morte e vida de um
povo.
Campo Grande:
Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso do Sul, 1996. p. 141-144..