PRIMEIRO DE MAIO CIDADÃO
Carlos Alberto dos Santos Dutra
Senhores me dão licença
Vou aqui fazer um atalho
Perdoe-me a ousadia
Tantas vezes foi negado
Pois saibam que esse senhor
Sofreu que nem animal
Vivendo resignado
Não vai ser assim de repente
É preciso raciocinar
Uma olhada na história
Sua dor e agonia
Daqui e do mundo inteiro
Todos têm suas lembranças
Quando a máquina chegou
E que serviu de exemplo
Industrial produção
O homem virou funcionário
Pois a Revolução Francesa
Aumentando mais o abismo
Abastado tubarão
Tudo pela produtividade
Junto à classe patronal
Tempos difíceis aqueles
Acabou-se o artesão
O corpo aos poucos cansado
Na maior insegurança
Desrespeito desumano
Sem fazer o desjejum
Tentar uma sorte qualquer
Num serviço temporário
Morrer de pneumonia
Na total desigualdade
Há males que vem pra bem
Trabalhando lado-a-lado. Foram fazendo amizade
Percebendo a verdade
Que mexeu com o cidadão
De protesto, barulhentos
E o fedor de carniça
Rompendo a situação escrava
Que ameaça o milionário
Contra o gesto abusivo
E o povo disse: não!
As revoltas foram muitas
A ilha da Grã-Bretanha
Que se sentiram ofendidos
A primeira greve geral
Que provocou um estrago
Pois a tal convocatória
Configurou sanguinária
Com polícia e truculência
E quando tudo acabou
Muito mais do que um ensaio
Oitocentos e oitenta e seis
De prisões, enforcamento
E suicídios sem-sorte
Pairou sombra sobre a terra
Mudou o curso da história
Dignidade e respeito
Celebrada coisa e tal
Que saiu do anonimato
Junto a toda sociedade
De mão dada em mutirão
Caiu do céu como um raio

(São Paulo, Scortecci, 2008, p. 27-30)