PRIMEIRO DE MAIO CIDADÃO

Carlos Alberto dos Santos Dutra

 

Senhores me dão licença. Hoje é dia do trabalho

Vou aqui fazer um atalho. Lembrar a cidadania

Perdoe-me a ousadia. Falar de um direito suado

Tantas vezes foi negado. Ao irmão trabalhador

Pois saibam que esse senhor. No mundo do capital

Sofreu que nem animal. Com o salário apertado

Vivendo resignado. Mas não se assusta o vivente

Não vai ser assim de repente. Que as coisas vão melhorar

É preciso raciocinar. E olhar a trajetória

Uma olhada na história. Da origem desse dia

Sua dor e agonia. Na luta dos companheiros

Daqui e do mundo inteiro. Contra a tal de mais-valia.

 

Todos têm suas lembranças. De como tudo começou

Quando a máquina chegou. A vapor naquele tempo

E que serviu de exemplo. Para a tal Revolução

Industrial produção. Que fez surgir o salário

O homem virou funcionário. Perdido na grande empresa

Pois a Revolução Francesa. Pregava o liberalismo

Aumentando mais o abismo. Entre empregado e patrão

Abastado tubarão. Que pregava a liberdade

Tudo pela produtividade. Concentrando o capital

Junto à classe patronal. E o peão na necessidade.

 

Tempos difíceis aqueles. Vividos de exploração

Acabou-se o artesão. Que virou homem treinado

O corpo aos poucos cansado. Homens, mulheres, criança

Na maior insegurança. Trabalhando aos seis anos

Desrespeito desumano. Quase sem valor nenhum

Sem fazer o desjejum. Lá iam, marido e mulher

Tentar uma sorte qualquer. A condição de operário

Num serviço temporário. De dezoito horas-dia

Morrer de pneumonia. Sem qualquer salubridade

Na total desigualdade. Sem direito a moradia.

 

Há males que vem pra bem. Naquele serviço apertado

Trabalhando lado-a-lado. Foram fazendo amizade

Percebendo a verdade. E a situação de opressão

Que mexeu com o cidadão. Fez surgir os movimentos

De protesto, barulhentos. Contra toda injustiça

E o fedor de carniça. Que da fábrica brotava

Rompendo a situação escrava. Vivida pelo operário

Que ameaça o milionário. Com o seu grito: uni-vos!

Contra o gesto abusivo. Da violência e exploração

E o povo disse: não!. A esse sistema nocivo.

 

As revoltas foram muitas. Inglaterra, Alemanha

A ilha da Grã-Bretanha. França, Estados Unidos

Que se sentiram ofendidos. Com a revolta laboral

A primeira greve geral. Na cidade de Chicago

Que provocou um estrago. Que entraria pra a história

Pois a tal convocatória. Por oito horas diárias

Configurou sanguinária. Reação de violência

Com polícia e truculência. Que a muitos assassinou

E quando tudo acabou. No dia primeiro de maio

Muito mais do que um ensaio. A vitória despertou.

 

Oitocentos e oitenta e seis. Foi a data desse evento

De prisões, enforcamento. Homem condenado à morte

E suicídios sem-sorte. Uma verdadeira guerra

Pairou sombra sobre a terra. Que culminou na vitória

Mudou o curso da história. Garantia de direitos

Dignidade e respeito. E uma data mundial

Celebrada coisa e tal. Por todo o sindicato

Que saiu do anonimato. E ganhou notoriedade

Junto a toda sociedade. Trabalhador cidadão

De mão dada em mutirão. Olha o primeiro de maio

Caiu do céu como um raio. Pros braços da humanidade.

 

(São Paulo, Scortecci, 2008, p. 27-30)