Xehitâ-ha Ofaié
conta a sua história
Xehitâ-ha é o nome indígena que
recebeu Ataíde Francisco Rodrigues, antes de ser batizado pelos brasileiros.
Membro da comunidade indígena Ofaié descende de uma família de caciques. Aos 37
anos despertou o esplendor de sua juventude. É um poeta. Também escritor e
líder de seu povo. Há oito anos trabalha junto à sofrida comunidade a que
pertence e a qual ajudou a soerguer-se das cinzas, apontando-lhes esperança.
Foi muito bem alfabetizado em português, por uma das famílias que juntamente
com outros fazendeiros acabaram por tomar suas terras. Pôde, desta forma,
através da palavra, falada e escrita, atuar de forma decisiva, levando adiante as aspirações de seu povo.
Com a sensibilidade e erudição que lhe são peculiares, manifestou suas idéias,
desenvolveu a poesia, resgatou a história e semeou um rumo para a nação Ofaié.
Neste site apresentamos uma pequena parte da sua produção de escritos
que entre 1978 e 1998 sobreviveu as constantes andanças e perseguições que tem
sido vítima este grupo. Não poucas vezes, seu caderninho de anotações
extraviou-se. Pacientemente, lá estava ele, sob a lamparina, a escrever tudo de
novo, revivendo, em silêncio, cada momento sofrido nos campos do abandono.
Do material coletado (textos de 1987 a 1991), alguns
fragmentos encontravam-se bastante danificados ou faltando pedaços. Tiveram de
ser re-elaborados por Xehitâ-ha. Outros não puderam ser recuperados e foram
desprezados. Uma pequena parte do conteúdo aqui apresentado já havia sido
publicado, porém, de maneira dispersa em boletins, jornais e revistas. Muitos
de seus textos foram escritos para painéis e debates de que participou. Lutador
incansável pela sobrevivência de seu povo, de forma admirável, desafia os
senhores da terra com seu canto de poesia e dor. Seu relato, ora em tom áspero
e profundo, ora emocionado e pueril, navega entre o lírico e o rasteiro,
carregando nas palavras toda a força de sua narrativa. Sua história, mais do
que um lamento a ser ouvido, é um grito, de indignada esperança, que se traduz
inteira na carência de solidariedade devida. Com a palavra o Cacique Xehitâ-ha.
Quando os portugueses descobriram o Brasil, verdadeiramente só existiam índios no Brasil. Quando os portugueses chegaram puderam encontrar somente índios em todos os lugares. Por isso temos esse orgulho de dizer que somos índios, os primeiros donos dessa terra.
O
descobrimento foi uma traição para os povos indígenas e também o princípio de
um genocídio. O Brasil foi descoberto pelos invasores. Passaram por cima de
nós, os índios.
Os estranhos chegaram cheios de ganância pela beleza
da terra. Mas não conservaram a natureza e a destruíram. Para construir
prédios, rodovias, a miséria, a morte, a doença e a repressão.
Os primeiros brancos que chegaram nestas terras
encontraram muitas aldeias e grandes nações indígenas. Eram mais de 5 milhões
de índios e ocupavam todas as regiões do Brasil.
A presença do homem branco nas terras indígenas é
ponto final na felicidade do índio. Eles tinham suas vidas tranqüilas e
saudáveis. Nunca tiveram que se preocupar com nada.
A terra sempre foi a mãe do índio, mas o branco não
quer saber disso. O índio, para o branco, é um bicho. E aí, entram matando
tudo, sem nenhuma piedade.
A maioria das pessoas brancas acham que nós não
entendemos nada nesse mundo. Consideram nós como bicho e não como seres
humanos. Fazem todo o tipo de pressão para nos exterminar. E isso está
acontecendo no país inteiro.
Na realidade, o índio sempre é o mais prejudicado e
esquecido. O homem branco não quer nem saber da dura vida do nosso sofrimento.
Porque ele tem tudo: água encanada, luz, televisão, casa boa, geladeira, e nós
índios não temos nada. O índio que se dane!
Nossos parentes índios entregaram suas próprias
vidas na defesa de suas comunidades. Enfrentam a ameaça dos latifúndios, dos
políticos e da economia.
E aí, entro na realidade de um povo sofrido que
somos nós os Ofaié. Nós que fomos levados a destruição por estes invejosos
invasores. Isto aconteceu com o meu povo Ofaié, que não fez nenhum tipo de
resistência.
Nesta narrativa vou contar a história de um povo que
viveu como uma grande nação. Os Ofaié deixaram na terra a marca de sua
história.
O sofrimento do meu povo foi a semente de um grande
desespero. Hoje esta semente nasceu, e cresceu sobre nós o fruto da amargura e
do genocídio.
No mundo deles cheguei e me assustei quando senti o
desespero e a preocupação de minha grande nação. Hoje sinto esta dor que parte
o meu coração ao meio.
Por isso senti por necessidade de penetrar o passado
e rever a marca de uma história, pois os Ofaié, com o seu próprio sangue,
marcaram a sua história.
Uns cem anos atrás, o meu povo Ofaié vivia
sossegado, porque tinha muita caça, pesca e mel. Não tinha nenhum invasor. O
Ofaié vivia na maior felicidade. Tinha a sua cultura, a sua dança, eram os Ofaié
saudáveis. Onde que os Ofaié viviam era a margem do rio Paraná. Os Ofaié
conheciam de palmo-a-palmo aquela região.
Segundo contam meus avós, hoje eles são falecidos,
nós éramos muitos, mais de duas mil pessoas. Todos viviam espalhados por todo o
canto do Mato Grosso do Sul. O Ofaié vivia na maior felicidade. Sem proteção
vivemos por longos anos.
Todos falavam a própria língua Ofaié, tinham a sua
própria tradição, uma cultura diferente, como todos os índios tem. O meu povo
não tinha agricultura, isto porque só dependia da caça, da pesca e do mel.
Nossos aldeamentos eram sempre por alguns dias. Isto
era necessário para não acabar com todas as caças. E as caminhadas eram sempre
nas margens dos rios. Hoje, atualmente, esses rios chamam-se rio Paraná, rio
Verde, rio Vacaria, rio Ivinhema, rio Taquaruçu, rio Casa Verde, e muitos
outros.
Os Ofaié sempre ocuparam o Centro Oeste do Brasil.
Foram grandes caçadores e coletores dos campos naturais da região. Os Ofaié
tinham as suas vidas cheias de felicidade. Tinham suas vidas saudáveis, porque
não lhes faltava nada, pois a mãe-terra dava tudo: o seu fruto, a caça, a
pesca, o mel.
Os Ofaié não se preocupavam com nada, pois a terra
era deles. A terra era sua vida de cada dia. O Ofaié vivia sobre a natureza e
também ela dependia dele.
Antigamente as caçadas eram individuais ou
familiares, isto porque quando o kauím
(milho fermentado) era preparado pela comunidade, os homens saíam a procura de
mel. A volta da caçada do mel era sempre tarde. Punham, então, o mel no cocho,
feito de madeira, e depois que todos chegavam, o cacique convidava todos os
membros da comunidade para o ritual.
Todos sentiam-se alegres e felizes. Porque era um
momento sagrado. Em volta do cocho cheio de kauím,
somente circula a felicidade, a paz e muita harmonia. Tem que levar sempre as
três no coração, porque vai precisar sempre. Isto significa que os Ofaié
acreditavam que alguém os pôs na face da terra.
A fé era para aquele que fez todas as coisas, o
ritual. Segundo os mais velhos Ofaié, exigia muito acreditar. É necessário ter
fé e acreditar, em todos os momentos da vida. Por isso que os Ofaié não
precisam de ninguém para lhes explicar como se deve fazer para respeitar as
obras divinas e o próprio Criador.
As margens do rio Paraná, desde a foz do Sucuriú até
as nascentes do Vacaria e Ivinhema, foram testemunhas da existência dos Ofaié e
seu passado conta sobre meu povo. Essas terras puderam sentir o peso de seus
passos, quando caçavam e viviam sobre elas.
Com isso o tempo passa sem preocupar o meu povo. Mas
estava bem próximo a iniciar uma caminhada para um violento extermínio.
Enquanto não chegava esta infelicidade o meu povo Ofaié aproveitava a última
oportunidade de viver na pequena paz.
Sem menos esperar, um dia, chegaram os primeiros
colonizadores, que começaram a invadir as terras matogrossenses e dentro delas
a terra dos Ofaié. Aí o branco invadiu nossas terras. E fomos expulsos. O
fazendeiro veio para criar o seu boi, construir sua casa, destruir o cemitério
dos índios e fazer correr os índios com seus filhos.
Foi nessa época que nós os Ofaié fomos levado a
destruição por estes invejosos invasores. Sem menos esperar, o meu povo começou
a iniciar uma caminhada de sofrimento e o vulcão do extermínio já vinha ao seu
encontro. O vulcão estava cheio de ódio, de doença, de alcoolismo e de
desprezo. O vulcão do branco explodiu sobre a terra e atingiu o povo Ofaié. O
vulcão branco separou as coisas que carregava sobre si.
O povo Ofaié foi vivendo aquela desgraça solta sobre
o seu paraíso que aos poucos foi sendo destruído pelo vulcão branco. O povo
Ofaié começou um grande desespero: as crianças vendo aquela cena, derramavam
lágrimas, vendo o massacre de seus pais.
O povo Ofaié sem a sua felicidade, sem encontrar um
lugar para viver, ficaram desesperados. Sem proteção, vivemos por longos anos.
Vivia em grupos e aos poucos foram morrendo. Sempre fugindo, deixavam para trás
um rastro de puro sangue. Quando tentavam retornar para os antigos aldeamentos,
eram recebidos a bala. Mesmo os doentes tinham que andar muitos quilômetros
para encontrar uma parada para descansar sossegados.
Muitos foram friamente chacinados, como se não
fossem seres humanos. As crianças foram degoladas, enquanto outras seriam
trocadas por uma camisa ou um quilo de arroz. As mulheres Ofaié eram obrigadas
a entregar seus filhos e outras por sentir muita fome.
O sangue Ofaié molhou as terras nas margens do rio
Paraná. Os esqueletos dos Ofaié foram deixados no solo; foram jogados como
bichos qualquer. Os brancos, por si só, se contentavam com as terras invadidas.
Aos poucos foram condenados para morrer. Não podiam
pescar. Antigamente podiam pescar livremente. As matas, que foram o paraíso
para os índios, agora, não podiam mais caçar. Sem nenhuma morada para festejar,
o meu povo está muito triste. O Ofaié ficou muito triste.
O fogo da ganância incendiou a paz de um grande
povo, que no passado era uma grande felicidade. O Ofaié que cantava para louvar
o seu próprio Agachô (nosso Deus, em
Ofaié), já não dança no seu próprio ritual em volta do casco do kauím.
Os inimigos dos Ofaié continuaram atacando sem
piedade. Matavam sem discriminar. Os ossos ficavam sobre a terra, Somente os
urubus podiam chegar diante dos corpos podres, abandonados pelo chão.
Exterminar os Ofaié era uma teimosia dos brancos.
Muitos fugiam, escondidos nas matas, sem saber o
paradeiro dos outros. Mas o inimigo branco não abandonava a idéia. Estavam
sempre perseguindo. Quando encontravam, era aquele massacre: eram crianças,
adultos e velhos.
E a terra cansou de ser manchada de sangue. A
maioria do meu povo já havia sido massacrado. Mas uns poucos conseguiram
escapar. Foi no tempo do Marechal Rondon. O meu povo tentava encontrar, mesmo
sem saída, pois todos os lados estavam sendo ocupadas as terras do meu povo, um
lugar para morar.
Sem defesa, entregavam-se para o extermínio. O
genocídio estava quase pronto. O sr. Marechal Rondon ainda estimou os Ofaié que
conseguiram escapar em mais de mil pessoas. Mas o povo Ofaié apesar de
perseguido estava mesmo era fugindo do inimigo.
Os brancos já ocupavam quase todas as terras. Os
Ofaié só encontravam bois. Quase não encontrava mais lugar para ficar. O
desespero estava tomando conta. Estavam morrendo à míngua, de fome e doença
transmitida pelo branco.
Os Ofaié andavam para lá e para cá. Tudo era
impossível para os Ofaié. E essa correria, por causa do desespero, os brancos
viam com os próprios olhos que percorriam as ocupações indígenas. Que nem os
historiadores que colhiam os dados, dados que ficam sempre no papel, como
ofício histórico.
Apesar das áreas determinadas para as ocupações
Ofaié, nunca foi garantida nenhuma delas para o sossego do povo Ofaié. Sem
nenhum documento oficial, acabavam perdendo suas áreas para o branco. Quando a
ocupação era feita pelo branco, outra vez os Ofaié deixavam as margens do rio
Verde e iam para o rio Pardo. E assim os Ofaié estavam ficando, aos poucos, sem
as suas terras.
Alguns Ofaié puderam ver de perto o drama de nossos
patrícios. Um certo Otávio Ofaié assistiu um massacre numa aldeia nas margens
do ribeirão Combate, perto do hoje município de Rio Brilhante (MS), onde alguns
cavaleiros atacaram os meus parentes Ofaié. Depois de matarem as pessoas
adultas, partiram para as crianças que eram jogadas para cima e aparadas com a
espada. Duas meninas que tentaram fugir, mas foram apanhadas e amarradas numa
árvore e em seguida foram degoladas.
Muitos massacres foram praticados no decorrer dos
séculos. Alfredo Coimbra, um dos mais velhos da tribo Ofaié também contou uma
barbaridade de massacres ocorridos nas margens do rio Paraná. Mais de dez Ofaié
foram mortos a tiros. Depois de mortos as suas cabeças foram separadas dos
corpos, onde ficaram sobre o solo sem serem enterradas.
Outro assassinato muito triste eu mesmo pude
assistir, apesar de ter apenas, somente quatro anos de idade, mas me recordo
muito bem desse lamentável fato. É que meu irmão estava desaparecido há quase
uma semana, e ficamos muito preocupados com o seu desaparecimento.
E foi num certo dia, o fazendeiro convidou uns Ofaié
para acertar umas contas. Quando os Ofaié chegaram na fazenda, o fazendeiro os
convidou para dar uma olhada num rancho velho, distante da sede da fazenda, a
uns duzentos metros. De repente, os Ofaié param e avistam um corpo estendido
sobre o chão. Era o meu irmão Otacílio, de dezesseis anos de idade. Sua cabeça
estava toda crivada de balas. Ele tinha sido assassinado três dias antes. Ali
mesmo foi aberto uma cova e o pobre do meu irmão foi enterrado.
Ninguém tomou conhecimento desse fato, pois
estávamos todos ameaçados de morte. Na fazenda estavam trabalhando seis
famílias Ofaié, na fábrica de cachaça. Eles trabalhavam sem ganhar nada.
Completamente escravizados, o consumo de pinga era constante. O fazendeiro e
seus filhos atormentavam os índios para que eles abandonassem o local.
Caídos no desprezo, a doença lhes entregou à morte.
Desesperados, sem saída, estão morrendo. E a maldita bebida alcoólica. Este
vício simbolizou uma fatalidade para o povo Ofaié em todas as áreas indígenas.
Fatos como estes já vinham acontecendo desde a
chegada dos primeiros brancos com todos os índios que foram também massacrados
e jogados de suas terras. Como nos tempos do colonialismo, imperialismo e
republicano: a imagem do massacre continuava. O retrato do louco vulcão branco
continua pelas paredes do egoísmo. A espada e a cruz do preconceito, soltas,
pelo mundo da injustiça.
A ocupação era festa para o branco invasor. E os
Ofaié, já cansados, lá outra vez deixavam as margens do rio Verde e iam para o
rio Pardo. Do Paraná ao Sucuriú, do Taquaruçu ao Ivinhema. Usados como
escravos, o meu povo estava sentindo na alma a presença cada vez maior do
inimigo, tomando o último pedaço de sua única terra.
Os brancos invasores iam entrando nas terras, como
se não tivessem dono. Sem dúvida alguma, viram os Ofaié nas margens do rio
Paraná. Por isso que os Ofaié foram perseguidos, acusados de comedor de vaca
dos fazendeiros. Eu tenho toda a certeza de que os Ofaié não iam adivinhar que
(as vacas) eram criação do branco. Pensamos como fosse um bicho selvagem
qualquer. Nem isso os brancos invasores pensaram. Agiram só para intimidar o
sossego do povo Ofaié.
Infelizmente o povo Ofaié foi massacrado friamente.
O sangue do Ofaié molhou as terras da margem direita do rio Paraná. Os
esqueletos dos Ofaié foram deixados no solo, foram jogados como bichos
qualquer. Os brancos somente por si já se contentavam com as terras invadidas.
Andando por todos os lados, os Ofaié tentavam ainda
viver com sua cultura, com sua dignidade. A caça não tinha mais. Não tinha mais
rios para pescar. Não tinha mais mata para fazer roça. Meus parentes, reunidos
ali, estavam abandonados e foram morrendo à míngua.
Por este motivo o meu povo ia para bem distante,
quando a ameaça já estava bem forte. Por isso os historiadores brancos puderam
encontrar o meu povo em muitos lugares. Mas, nesse vai-e-vem sempre mantivemos
a nossa cultura e o nosso idioma. Quando chegavam num certo lugar o meu povo
fazia as suas roças, plantavam milho, mandioca, batata e alguma criação.
Com o susto dos invasores, os índios Ofaié foram
separando. Um grupo ia para um canto e outro para outro lado. Com certeza nem
todos tiveram sorte, pois a tal ganância pelas terras era demais. O invasor
hábil persegue o meu povo para exterminar. Vontade de conquistar as terras é o
que não falta, enquanto que a tranqüilidade do meu povo há muito tempo havia
acabado.
Sem piedade, sem pensar, ali ficou o invasor para a
agonia do meu povo. Agonia dos revoltados. Tiveram que fugir, não sei prá onde.
Espalharam-se. Chegaram perto de Xavantina, enquanto que outro grupo foi parar
na Fazenda Barra do Cedro. Acho que duas famílias tentaram ficar por ali mesmo.
Nesta época eu era bem pequeno.
Fatos desses, do passado, deixaram marcas da
discriminação contra aqueles que chegaram primeiro. Deram os primeiros passos
nesta terra santa que o Senhor fez para os seus primeiros filhos, que somos
nós, os índios. Mas infelizmente a sua obra divina fez o motivo para se matar,
derramar sangue, fazer negócio, para se discriminar. A terra ao invés de fazer
vida, o homem branco transformou-a num palco de violência. Os invasores fizeram
quatro paredes deixando dentro o meu povo.
O artigo 8º (do Estatuto do Índio) diz: Os brancos
não podem prejudicar o índio. Quem prejudicar o índio em algum negócio pode ser
preso e o negócio não vale nada. Primeiramente quem deveria respeitar (este
artigo) era o branco que trabalha na Funai, que faz a miséria para o índio.
O Governo não criou esse órgão para resolver os
problemas do índio? Existe o Estatuto do Índio para assegurar os direitos
indígenas, como diz o artigo deste Estatuto: "O Governo do Brasil por obrigação dessa Lei deve ajudar e defender
os índios, deve respeitar sua cultura, seu jeito de viver, deve garantir a
terra dos índios, só para os índios e para ninguém mais".
Infelizmente, do outro lado da política indigenista
da Funai, só olham nos buraquinhos da peneira com medo de serem procurados
pelos índios. Sabemos que só ali os problemas são resolvidos. Porém, enquanto
os Ofaié não virem nada, vamos continuar divulgando nos jornais o nosso
problema, porque está bem aceito por eles.
Companheiros índios, é triste saber que os nossos
irmãos estão sendo expulsos de suas terras. É triste saber a omissão das
autoridades que é grande em relação ao nosso problema. Mas a nossa coragem é
muito mais forte do que a força dos latifundiários.
Nós era extinto pelo antropólogo Darcy Ribeiro. Mas
isso é mentira. Estamos ainda vivos, num total de 27 pessoas. Ainda existimos,
já bem poucos, sem a nossa terra-mãe. Lá onde estão enterrados nossos
patrícios. Provamos o local para qualquer pesquisa.
De que vale nós sermos índios? Nós estamos só
servindo de texto para esses brancos que escrevem história de índio.
Mediante toda esta situação estamos enfrentando uma
vida péssima. Acreditamos nas promessas e alcançamos a pura miséria. Depois
desse tempo todo, hoje, não acreditamos mais em promessas. Não acreditamos
porque nada aconteceu. Já estamos bem servidos de promessas não cumpridas.
É por isso que em nome do meu povo peço a vocês que continuem pressionando as autoridades competentes. Porque sabemos nada está fácil e por isso que nós, os Ofaié, queremos a nossa terra.
Vocês, brancos não precisam preocupar com a vida e
sua maneira de viver. Se vocês são capitalistas, isso é uma necessidade de
vocês. Não compare os índios com o capitalismo de vocês, porque somos
diferentes, muito diferentes.
Vocês, brancos tem tudo e nós índios não temos nada.
Não temos terra, não temos sossego, não temos descanso, porque somos seres
humanos. Fazem todo o tipo de pressão para nos exterminar. Isto está
acontecendo no país inteiro.
Precisamos de apoio, de uma palavra amiga, de
esclarecimento. Desejamos que o nosso problema seja conhecido pela sociedade
branca. Mesmo sabendo que os interesses dos povos indígenas no Brasil não são
muito ouvidos.
As nossas almas são tímidas perante esses
comprometidos cheio de egoísmo. Mas vamos ter a nossa comida com o suor e com a
ajuda de Deus, sempre vamos ter".
Fonte: Dutra, Carlos Alberto dos Santos. Ofaié, morte e vida de
um povo. Campo Grande: Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso do Sul,
1996, p. 25-70 Capítulo: “Xehitâ-ha, testemunha do massacre”.
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