Tomo a liberdade de relembrar um pouco a história desse bairro. História que também participei ao lado de muitas famílias que ainda hoje vivem aqui. Esse bairro inicialmente recebeu o nome de Tia Neusa, e ele foi um marco na vida de muitas famílias desse município de Brasilândia.

Vocês se lembram? Eles foram chegando de vários lugares e, logo, fizeram-se amigos. Vizinhos que há pouco mal-e-mal se conheciam, aos poucos formaram uma comunidade. Parece que foi ontem.

Era dia 12 de outubro de 1988 e, sob a bênção de Nossa Senhora Aparecida, a grande maioria dos moradores já se encontrava no novo bairro. Ambiente árido, com muita poeira, por causa do vento, vegetação escassa, as raízes das árvores ainda visíveis nas ruas, denunciavam a derrubada da mata que antecedeu a construção das casas. Aos poucos os moradores foram criando gosto pelo bairro, apesar do preconceito, responsável por apelidos nada simpáticos que o bairro foi ganhando com o tempo. "Pia-cobra", entre outros, era o mais nobre.

Para algumas pessoas, só se mudava para a Cohab quem não tinha onde cair morto, diziam que para cá só vinham as pessoas pobres e os carentes. Mas estavam enganados esses que falavam mal do bairro. O cotidiano da vida foi tomando conta das pessoas e a solidariedade foi brotando junto à luta travada, até mesmo, contra as formigas que teimavam em invadir nossas casas. E o bairro começou a ter orgulho de si próprio. A história mostrou com o tempo que os pessimistas estavam enganados. O bairro depois foi rebatizado com o nome Tomaz de Almeida, por indicação da Associação de Moradores que emergiu e também adotou o nome do antigo farmacêutico do município.

O bairro começou a receber pessoas de todos segmentos sociais e profissionais. O fato, na época, mereceu destaque nas páginas do pioneiro Jornal de Brasilândia. Viviam aqui militares, funcionários públicos municipais, estaduais e federais, bancários, do poder judiciário, da indústria, do laticínio, professores, intelectuais, administradores de fazenda, profissionais autônomos, mecânicos, eletricistas, comerciantes, entre outros.

E lá estavam eles, os pioneiros moradores do bairro: seu Ricardo, dona Osmarina, soldado Wilson Freitas, seu Mário Amaral, Ataíde Lopes, Abadio Ferreira, José Duchini, Ercílio Fonseca, José Hélio, Manuel Dário, dona Yeda Lopes, Sidnei Alves, Cícero dos Santos, Benedito Buzzat, o então cabo Antônio Joaquim, Carlos Alberto Amaral, Eduardo Crepaldi, Valdemira, Maria de Lourdes, tenente Francisco Dias Neto, Manuel Messias, Arildo Rogério, André Cardamone, Edílson Lopes, Marcos Brasil, Valdenir Maciel e, ao lado de tantos outros, o Carlito, esse que vos escreve.

Com a autoestima resgatada, os moradores mais confiantes, começam a sair de si mesmo. Procuram embelezar o bairro, plantam árvores e cuidam melhor do seu cantinho. Os de melhor condição financeira cercam seus pátios com muros ou alambrados de bambu. O bairro toma jeito de gente grande, para a alegria dos moradores que se sentem cada vez mais unidos. Da amizade surge a necessidade de canalizar energias em torno de conquistas para o bairro. Surge a idéia da Associação de Moradores.

Tantas reuniões e convites. Na casa da dona Leda, no Sérgio japonês, no seu Ricardo. Cada um com sua cadeira no ombro, ao relento. O idealismo na frente e a coragem de trás. Depois de uma primeira tentativa de formar uma Associação pelo Sr. Jamil Fernandes, a AMATA finalmente foi fundada, tendo a frente o Sr. Carlos Alberto do Amaral, o amigo Beto do Bamerindus, grande batalhador.

Após o registro do Estatuto Social em Cartório e o inédito título jamais conseguido até então por uma entidade em Brasilândia, o de Reconhecimento de Utilidade Pública, é fundado o Boletim da Amata, que passa a divulgar idéias e a unir os moradores.

A HISTÓRIA CONTINUA

Quem se lembra dos filmezinhos, os slides que eram projetados na parede nua das casas durante à noite? Entre eles, "As onças e os gatos", e "Quem manda em meu lugar", para a alegria das crianças e também dos adultos, que buscava despertar o senso crítico dos moradores. Participação popular era ainda uma palavra estranha e vista com maus olhos pelos Administradores da coisa pública. Tanta saudade.

Depois veio a grande gincana do dia 7 de setembro de 1989 e o baile Country realizado pela Associação. Existem fotos históricas destes eventos nos arquivos da AMATA. Depois veio a participação da entidade na feitura da Lei Orgânica do Município e a Associação encaminhou sugestões que foram acolhidas.

No final da gestão do Beto, seu diretor cultural, Carlito, já havia encaminhado um projeto a uma entidade internacional para a construção da sede própria. Na gestão do Carlito, já como Presidente, foi iniciada a obra do salão comunitário que foi concluído na gestão do Tenente Neto. Depois assumiu a Maria de Lourdes, depois o saudoso Ercílio Fonseca, e hoje a AMATA volta à direção do Tenente Neto, que administra com brilhantismo esse bairro que tive a honra de partilhar 10 anos de minha vida.

Ali vivi com minha esposa Vilma, tive minhas duas filhas, tive o meu comércio Chimarrão, editei livros e jornais, plantei uma palmeira imperial, fiz amigos, enfim, vivi.