Alfredo
Coimbra: Memória de
Brasilândia
Entrevista realizada por Carlos Alberto dos Santos Dutra em 18 de março de 1987, em Brasilândia-MS.
Ekureifyg ou Alfredo Coimbra, conhecido simplesmente como “Vô”, nasceu em 24 de fevereiro de 1900 (segundo certidão fornecida pela Funai), em terras pertencentes à Fazenda Primavera (hoje, município de Bataiporã). Foi um dos últimos Ofaié a ser catalogado por Curt Nimuendajú (Laranjalzinho, 7 de fevereiro de 1913), quando ainda vivia com seus pais nas margens do rio Samambaia e onde, provavelmente, adquiriu o sobrenome Coimbra. Desde 1903 o conhecido "amansador de índios”, Ramón Coimbra encontrava-se na região do Ivinhema e Campos da Vacaria, inicialmente como funcionário, depois como Chefe de Posto do Ivinhema (Laranjalzinho) e por fim, como dono de terras, a partir de 1920. Os indígenas que estavam sob sua guarda, provavelmente batizou-os, como era do costume, com sua marca e "sobrenome".
Ainda pequeno, com oito anos de idade, Alfredo migrou com seu pai para a região do ribeirão Boa Esperança sendo considerado, por algum tempo, como líder de seu povo. Era viúvo da Arê Eugênia, nascida na aldeia Esperança em maio de 1889. Eugênia era filha de Ketegnôn e Kitomechantay, conforme o Registro Administrativo de Nascimento de Índio, da Funai (Posto Indígena Bodoquena). Cego de um olho, que perdeu durante uma caçada de onça, durante os últimos anos de sua vida assistiu seu povo ser dizimado e expropriado da terra de seus antepassados. Em idade avançada, faleceu em 1988 no Hospital da Missão Evangélica Kaiowá, na cidade de Dourados.
Debilitado pelas constantes andanças e perseguições, ao final de sua vida, ainda teve que assistir ser rejeitado no hospital local, na terra berço que ele viu nascer. --Ele está velho, dizia a médica; --Bronquite crônica, dizia o médico. A escória, tratâmo-la com lenitivos. Apesar do esforço das enfermeiras de Brasilândia que, com atenção e carinho, minimizaram suas dores, teve de ser removido para Dourados. Sua última consulta, entretanto, tiveram o despautério de cobrá-la em cruzeiros. Quatro dias após ser internado em Dourados, volta à Brasilândia dentro de um caixão, para a tristeza de poucos. Durante o enterro deste pioneiro e anônimo fundador brasilandense, diversas lideranças e representantes de entidades manifestaram-se com depoimentos de solidariedade ao mais antigo herói deste povo sofrido.
O sr. morou no
Samambaia?
Alfredo- É. Eu era pequeno ainda. Tava mamando ainda. Eu não sabia nem onde é. Eu vim criá aqui. O meu pai conhecia; papai conhece aquele mundo lá, até em Campo Grande, lá na serra. Só papai conhece tudo lá. Ele contava. Aí ele falou: se for aqui na serra, está perdido. Aqui é longe e é verdade mesmo né? Eu falei, será? Aí ele falou, é longe. Ele foi de mudança, foi parando, foi pousando no mato. Olhô uma cabeceirinha , pousou lá e andou um pouco até chegá prá cá, prá cá. Ele foi lá no Samambaia; ainda de lá que ele veio aqui. Aí eu não sabia onde que nós vinha, né?. Eu era pequeno, eu vim criá aqui. Eu não sabia...
Quantos vieram de
lá?
Alfredo- Vieram muitos. Era muitos. Acho que veio o
pai do Tomé; também veio de lá tudo.
Tomé também criou aqui, ele nasceu aqui. O pai do Tomé, morreu aqui
mesmo. É o pai dele morreu aqui mesmo. E a mãe dele. Então, morreu todos aqui.
Só o meu pai que morreu lá na estrada do Três Lagoas. Chegou um fazendeiro, aí
levou prá tratar, mas não chegou, morreu na estrada. É, levaram prá tratá, mas
não chegou lá, morreu na estrada. Aí enterraram lá no Três Lagoas, lá no
cemitério.
Como era o nome do
seu pai?
Alfredo- Gasparino. É, ele, papai também Gaspar,
Gaspar Cuêmbe. Ele tem sobrenome também. Um fazendeiro que batizou, não sei onde
é, né? Não lembra. Faz tempo que ele morreu. Meu pai, ele morreu na estrada né?
Eu tava, tava caçando no mato. Aí chegou um fazendeiro, aí levou prá lá, prá
tratá, mas não chegou, morreu na estrada... Levaram prá enterrar lá. Lá achou
terra (...).
Ele tava perto do
rio Verde?
Alfredo- O pai do Tomé também morreu prá cá, não sei,
alí na beira do rio Verde. Lá tá enterrado lá, né? Enterrado, acho, no mato. Não
é cemitério, né? Tá enterrado, assim, no mato. Lá acho que morreu três, dois
mulher lá também, e o pai do Tomé. e o pai do Felipe também morreu lá. Tá tudo
lá, jogado, enterrado no mato. Tá tudo na beira do rio Verde. É, na beirada do
rio Verde, pro lado de cá. Alí prá cima, prá cima da ponte... Tem três que
morreu lá, tá enterrado lá e jogado. Tá um mato lá o cemitério. Virou mato lá,
não é mais não, não limpa lá...Era tempo cemitério alí, que nem
aqui.
E tinha aldeia
alí? Na beira do rio Verde?
Alfredo- Ah, tem. Lá tem uma aldeia também. Eles tudo lugar tem aldeia. Aldeia nossa prá lá do rio Pardo também tem. É, tem. Tudo tem aldeia. Não pára. Nós não parava, só andava, só assim: um muda prá lá, outro troca prá cá, a vida é assim... Depois quando ficou dois anos aí, cheguemos lá na Boa Esperança. Então o fazendeiro falou: vocês convém parar um pouco, faz roça aí, e planta. Negócio de ocêis, andá assim, ocêis morrem tudo. Aí parou, aí parou. Trabaiando, aí começaram a trabaiá, criá porco, criá galinha... E é verdade mesmo que ele falou, né? Aí ele falou: ocêis morrem (de) tanto caçá de fome. Aí parou, lá trabaiêmos, carpimo, carpiu, deu empreita lá fazenda prô carpí a mandioca dele... Então ele falou: então ocêis carpe a mandioquinha aqui e eu paga ocêis; vô mandá carnear para ocêis. Aí (nós) falô: tá bom. Aí melhorou, né? Aí já morreu muita gente; se a gente não trabaiasse mais tempo, não morria não. Negócio, andá assim, morre tudo.
Quer dizer que
antigamente andavam sempre caminhando? Samambaia, rio
Verde...
Alfredo- Pois é... Aqui também em Brasilândia não tinha nada; aqui era sertão ainda. Aqui não tinha ninguém, nem roça, nem estrada, aqui tudo era sertão. Dispois foi chegando, de um, prá formá. Veio de lá de São Paulo, não sei de onde. É. E aí descobriu aqui... (...). Mas Ofaié já tava aqui. E viu tudo... Viu até, alí no outro lado, onça que comeu um patrício nosso. Foi mesmo, ele sai caçando e onça, a onça pegou ele, comeu... E a onça é bem grande. Um pintadona assim, tá doida! É, eu não chega na casa daquele bicho. Eu chegava armado né?, armado tudo de uma armada boa, aí a gente mata. Com flecha não mata não; é bicho que tem dente prá atorá flecha todinha, estraga tudo e nem morre, vai embora. E eu, que atirô onça, também correu, foi prá casa dele; tem medo né?, onça torou tudo flecha dele. Mandou dente, e ele tocava flecha, tocava flecha, e onça torava todinho e não morreu. Que bicho duro esse, tá doido. eu não chega (em) roda deste bicho não. Eu possa chegá, (só) tando armado, né? A onça, tando armado, chega, atira, ele mata ela...
A carne de onça é
boa?
Alfredo- A é, e é gorda rapaz. A onça comeu muita
criação, comia gado lá, bezerro do fazendeiro na Boa Esperança. E tem caçador
lá, mas caçador não chega na onça não. ele tem armada boa, tem carabina, tem
revolver...E a onça quase tomou o revolver dele. (sorri). Ih hôme óh! Não tem
coragem não. Com armada, tem revólver, carabina, óh, e não tem coragem... Matou
quatro cachorros dele, a onça comeu. E ele chegou lá, aquele fazendeiro, o
caçador chegou lá na aldeia correndo, aí ele falou: ele convidou os outros lá. Falou: vâmo
lá matá a onça? Que vai nada, nóis não tem armada... Aí falou: eu não posso
matá, eu tenho medo. Aí eu falei: i essa armada sua, não vale? hei? (sorri). Aí
ele falou: a onça que se me tomô o revólver. Correu, correu e foi lá na aldeia.
De lá da aldeia ele foi na Boa Esperança corrido da onça. E quase que a onça
comeu ele, hei? Se pegasse, matava
e comia. e ele é caçador, um mundo de cachorro...
Era o fazendeiro
lá da Boa Esperança?
Alfredo- É. Éra empregado do fazendeiro prá caçá.
Caçava, mata onça. Mata tanta onça lá..., que mata nada.Era grande a fazenda,
tinha bastante bicho. É lá na fazenda. Então o fazendeiro mandou, deu sua vida
só caçá, matá onça; ela tá comendo criação lá. E nóis come mesmo, porque não tem
jeito. O caçador não tem coragem. (...).
Vocês pescavam
muito no rio Verde?
Alfredo- (...) Hã, pega aqui no rio Verde. É, aí tem peixe prá daná. Nóis morava aí na berada do rio Verde, nóis comia era peixe, mas tem mesmo. No Rio Verde, nóis morava, morava lá. (...). fizemos roça lá também. Lá não dá prá plantá, porque tem capivara demais. Capivara chegô assim no arroz: limpô. Esse bicho é disgraçado: mandamos no peito. Prá comer é bom. Capivara, se nóis acha, é pronta: estrago feito mesmo. (pausa). Eu gostava de matá é urtigada, urtigada chumbera, assim eu matava. Eu tenho chumbera, mas vendeu, vendeu prá uns Kaiuá lá, lá na Bodoquena. Lá vendeu barato, quinze contos. E era bom a espingarda, hei? É de puxa-saco, mas era bom mesmo. Eu matei dois onça aqui mesmo, na fazenda. Onça parda eu matei dois. Queixada, então, derrubei aí dois também. Eu gosto de caçá com armada boa memo.
O senhor é
caçador, então?
Alfredo- É. Eu mato mesmo. Agora, prá caçar (onça)
com flecha, não dá, num tem trêno né? (...) Eu matava mesmo. Só não caça de
noite, tem medo da onça. Eu fico na espera, faz uma cova lá, não dá prá onça
chegá lá, ora se onça chega lá. Eu não caça por causa disso, né?, por causa da
onça mesmo. Gosto de caçá de dia, aí que é bom, mas de noite não. Pois é, ele já
comeu tanta gente lá; fiquei com medo, também de comê eu, né?
(...).
Tinha peixe na Boa
Esperança?
Alfredo- Dava peixe lá também. Nesse corguinho que
ficou prá lá. Subiu muito peixe prá lá, piau... um e um peixe lá. Tem mais é
poca lá. Poca (paca) é carne gostosa hei. É quase leitoa mesmo, tá
doido.
A aldeia era perto
do corguinho esse?
Alfredo- É. Era lá no corguinho. Na ponta. Bem na
cabeceira, prá um pouco. A aldeia nossa era prá cá, prá cá da Boa Esperança.
Primeiro nóis morava na fazenda. Depois mudou prá cá. Muito prá cá na
cabeceirinha. Um varjão assim também na ponta da cabecerinha. Depois chegaram,
chegaram um camarada lá, tomou nosso varjão, estragou. Estragou mesmo. Não sei
se ocê conhece, um paulista que vem de lá de São Paulo, não sei onde, foi morá
lá. Não sei se ele tá lá ainda. O nome, o nome, como se chama esse home.
(pausa). Um homem chama seu Loro. É, e o seu Loro. É mora prá cá (...). No
varjão, varjãozinho assim.
E alí era de
vocês?
Alfredo- Era de nós. (...). ele pegou assim. Botô
gado la dentro, estragou tudo. Plantou capim, estragou. Plantou aquele colonião
assim. Tá formado lá (pausa). Mas assim mesmo dá prá plantá lá (...). Lá é nosso
mesmo. Lá já plantei muito arroz, no varjão. E nóis vendemo, ele vendeu né? Ele
vendeu prá otra fazenda Boa Esperança. Então eles vão lá e convida homem prá
comprá. Aí chega lá com carreta e aí pega o boi. Toca carreta lá e puxa. Levou
prá fazenda. Tudo que planta lá manda prá fazenda. Aí eles compra, compra açucar
e mate e algum, muita coisa eles compra lá, né? Naquele tempo era
bom.
Quando vocês foram
para o rio Verde vocês estavam na Boa Esperança?
Alfredo- Pois é. Nóis veio de lá da fazenda, foi morá
aí na beirada do rio Verde, as pessoas não pára. (...). Se parasse lá, não tem
lugar, nóis já tava lá, o negócio andá assim, não dá não. Caçá outro lugar na
beirada do rio Verde. E nem foi todo prá lá, até acabá nossa criação. E acabou.
tudo come. Puxa, come; carrega o trem lá, agora tem que levá um pouquinho nas
costas, vamos lá, só nas costas. I era porcada também, começaram a vendê e a
porcada acabou. Nóis passava era aqui na estrada que vai prá Três Lagoas, até lá
na beirada do rio Verde, né? (...). Mas foi, de lá passemo aqui, foi morá lá, e
agora longe (de) todos (os) trens prá trás acaba. Sofremo de fome agora que vai
boa prá plantá, agora. E como trabaiei de fome, não dá. Caçá também, prá caçá
que não é difícil caçá, mata algum bichinho, algum bichinho quechada, daí vai
trabaiá um pouco; trabaia três dia, quatro dia, se não outro dia, outra vez com
a caça, outra vez, não tem jeito né. Tem sofrido muito, tem mesmo, sofremo mesmo
(pausa). Não criou, morreu de fome, é. Chegou aqui na fazenda Boa Esperança, o
fazendeiro carneava, prá nóis. Então criemo né. Começaram a carpi lá,
mandioquinha lá. Que mandioca dele, da fazenda, né. Daí prá conhece, andava
berando o Paraná em tudo, e fui subi prá cá, outra veis de novo,
né.
Dava doença,
morria de quê?
Alfredo- Morria de fome. Ofaié caça todo o dia, mas
não acha. algum dia, né, noutro dia acha, mata algum bicho. Agora come sem sal,
não tem, onde que vai comprar sal? (pausa). Aqui, era aqui nesse lugar, aqui era
mato. Não tem nem um morador, ninguém aqui, só bicho mesmo. Nuntém ninguém aqui.
Não tem mesmo. Agora, as pessoas veio de lá de São Paulo, veio prá formá aqui,
chegô de um, né. Fizeram uma casinha alí prá formá esse negócio aqui. Acabou
nossa caça, né? Roçô todo por aí, quando formô, mais um pouco de reses. Vai
muita gente morá aqui, então o bicho mudou, desceu prá baixo. Agora tem mais em
cima né? (...) Até nem sei se roçaram o todo agora lá... Agora prá ir na beirada
do rio Verde, já derrubaram todo o mato, não tem nada, tá toda formada. Prá aqui
mesmo até no Paraná não tem mais mato (...).
Fonte: Dutra, Carlos Alberto dos
Santos. Ofaié, morte e vida de um povo. Campo Grande: Instituto Histórico e
Geográfico de Mato Grosso do Sul, 1996, p. 130-136.